EDITORIAL
O informe anual da Organização para a Alimentação e Agricultura da ONU (FAO), divulgado na sexta-feira, revela que mais de 800 milhões de pessoas, ou seja, 13% da humanidade, passam fome e têm doenças relacionadas com a desnutrição. Há 30 anos, segundo o boletim, esse número era superior, chegando a um bilhão de pessoas, com um percentual maior. Isto leva a concluir que o objetivo de erradicar a fome é realizável, embora demande enormes esforços. Segundo o diretor-geral da FAO, Jacques Diouf, existem técnicas e recursos para reduzir ainda mais a faixa dos que sofrem com a fome no mundo. Para os peritos da FAO, que fizeram uma análise das mudanças registradas nos últimos 50 anos no setor agrícola, a produção mundial de alimentos é atualmente mais que suficiente para alimentar de modo apropriado os 6 bilhões de seres humanos que habitam o planeta. Segundo a FAO, nos países em desenvolvimento, cerca de 1,2 bilhão de pessoas, ou seja, quase um quarto da população mundial, vive com menos de um dólar por dia, o que resulta numa difícil sobrevivência. O relatório denuncia também o efeito devastador das guerras, os conflitos armados e as revoltas civis que continuam sendo as maiores causas da insegurança alimentar. O trabalho enfatiza que os conflitos internos afetam principalmente a população rural, com consequências naturais sobre o abastecimento.
A FAO calcula que teriam que ser gastos 13 dólares por pessoa ao ano para oferecer os alimentos indispensáveis aos desnutridos, informando que as perdas devidas aos conflitos nas nações em desenvolvimento superaram as ajudas alimentícias de toda natureza oferecidas a esses países nos anos 80 e 90. Como exemplo, a organização calcula que de 1980 a 1989 as perdas foram de 37 bilhões de dólares, enquanto a ajuda atingiu 29 bilhões. Além dos conflitos armados, as más condições climáticas influenciaram a situação alimentar e agrícola, assim como a crise monetária desencadeada em 1997 e a queda dos preços de importantes produtos de exportação dos países em desenvolvimento.
Junto ao informe anual, a FAO apresentou um estudo técnico a respeito do custo econômico da fome e sua influência sobre o crescimento, baseado em dados de 110 países, obtidos entre 1960 e 1990. O documento, elaborado por Jean-Louis Arcand, professor de economia da Universidade de Auvergne (França), mostra em particular que se a disponibilidade energética alimentar fosse de 2.770 kcal por pessoa ao dia, em um grupo de países tomado como amostra e cujo nível era inferior, a taxa de crescimento anual do PIB teria aumentado de 0.8%. As repercussões são importantes já que as taxas de crescimento anual dos países estudados foi de cerca de 2% no período analisado. A conclusão simples deste estudo é a de que também em termos econômicos é importante que se realize o trabalho destinado a reduzir a fome no mundo.
Igualmente importante é o conhecimento de que atualmente a produção de alimentos é suficiente para atender às necessidades mínimas da população mundial. Há alguns anos, quando era bem menor o número de habitantes do planeta, uma das maiores preocupações era a de que o mundo sequer produzia alimentos suficientes para atender à demanda. Esta modificação, aliada à redução do total de pessoas vivendo em situação de miséria, efetivamente deixa claro que o esforço no sentido de garantir o fim da fome na Terra não tem nada de utópico. Constitui, basicamente, uma questão de vontade política. Um desafio que pode ser vencido e que exige, apenas, que haja uma política de produção consistente, com apoio efetivo ao trabalho no campo aliada a uma melhor distribuição de renda entre os povos.





