EDITORIAL
O movimento deflagrado em vários países da Europa contra a alta nos preços dos combustíveis começa a refluir, na medida em que ocorrem acordos entre os manifestantes e as autoridades. Na Itália, o governo aceitou a proposta para reduzir os impostos em 0,06 euros por litro para os caminhoneiros. Na Noruega, o sindicato patronal dos transportadores das estradas suspendeu a greve após ter recebido garantias de que a questão da redução dos impostos sobre o diesel seria examinada, dentro do projeto de orçamento para 2001. Na Bélgica, o bloqueio das estradas e depósitos de combustível terminou praticamente depois da obtenção de um acordo entre o governo e as federações de transportadores embora ainda haja sérias restrições porque não implica em diminuição dos impostos sobre combustíveis.
Na Inglaterra, ocorreu, também, o fim do bloqueio às refinarias mas o primeiro-ministro Tony Blair enfrenta um dilema: reduzir os impostos sobre os combustíveis e dar razão aos manifestantes ou manter as taxas e enfrentar outra série de protestos. Blair conseguiu o fim dos bloqueios na quinta-feira sem ter prometido nada aos caminhoneiros e aos agricultores. Entretanto, ele teve que ir contra a opinião da maioria dos ingleses, que compartilham a indignação dos manifestantes em relação ao preço da gasolina na Inglaterra, o mais caro de toda a União Européia. Ele só conseguiu uma trégua com parte das manifestações, que lhe deu 60 dias para reduzir os impostos dos combustíveis, sob a ameaça de retomar o movimento.
Segundo uma pesquisa realizada pelo jornal Daily Express, 84% dos ingleses querem a redução das taxas da gasolina. O próprio Blair parecia disposto a tomar uma atitude neste sentido ao dizer que escutará as reivindicações sinceras e fundamentadas dos manifestantes. Os impostos representam 76,8% do preço da gasolina sem chumbo na Inglaterra, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE).
O preço dos combustíveis está elevado em todo o mundo e, apesar de algumas análises otimistas, é quase certo que não baixará muito. Todavia, o importante é observar como o foco dos protestos em quase toda a Europa não é em relação aos preços, mas envolve os impostos. Há ali uma clara percepção sobre o fato natural de elevação nos preços reais do petróleo, adicionada à observação sobre uma certa gula fiscal em relação ao produto. Existem razões para isto.
Na Grã-Bretanha, mesmo, indica-se que o governo taxou fundo os combustíveis na época dos preços mais baixos. Agora, com a alta mundial, reluta em mudar a política. Em outros países europeus, a tendência é a mesma, embora em alguns as justificativas sejam diferentes. Os chamados impostos ambientais, lançados sobre os combustíveis que, de fato, prejudicam o clima, representam um peso muito grande sobre o preço final.
A questão principal assim não é a do valor real cobrado pelos produtores mas da voracidade dos governos, fenômeno que, infelizmente, não é um privilégio europeu. Com efeito, a carga tributária tem representado um peso generalizado em quase todo o mundo, como os brasileiros têm sentido, e muito. É interessante, no particular, perceber que o Paraná se antecipou, anunciando uma redução no ICMS sobre os combustíveis. Não é, ainda, uma diretriz nacional, nem chega a representar uma redução muito acentuada. Entretanto, oferece um certo alento ao consumidor que está enfrentando muitas dificuldades com a alta constante nos preços dos combustíveis. Pode representar um indicativo positivo, num momento importante, abrindo portas para, através da redução tributária, oferecer condições melhores para a própria retomada do crescimento econômico, o que é a grande necessidade atual do Brasil e, também, do mundo.





