EDITORIAL
Faltando três meses para o fim do mais conturbado (e, igualmente, o mais criativo) século da História, a Humanidade se reúne na Austrália para celebrar o sonho da união entre os seres humanos, numa festa, os Jogos Olímpicos, que mais do que uma competição esportiva são a consumação do ideal de congraçamento dos habitantes deste planeta. Restaurados no final do século passado, pelo barão Pierre de Coubertin, os Jogos Olímpicos representaram, então, um verdadeiro ideal utópico na medida mesmo em que tentavam reunir os homens para uma experiência diferente, usando o esporte como forma de aproximação. Uma iniciativa que parecia então mais impossível do que agora, até porque não havia, à época, condições como as que existem atualmente, de tal modo que a simples presença dos competidores em Atenas representou por si uma façanha incrível.
Ao longo de todo este século, houve duas guerras mundiais e incontáveis conflitos entre as nações. Por 3 vezes, em 1914, 1940 e 1944, os Jogos não foram realizados. Muitas outras vezes, foram alvo de boicote. Serviram, também, como meio de propaganda política, foram explorados por governantes totalitários. E, no entanto, sobreviveram a tudo e continuaram, inclusive ganhando importância cada vez maior, sobretudo a partir das últimas edições. Hoje, estão representados na Austrália atletas de 199 países, alguns dos quais sequer, ainda, com status legal. Praticamente todas as nações, todos os povos, todas as raças se encontram ali, realizando mais que uma disputa esportiva o grande sonho de congraçamento, a aproximação que constitui sem dúvida a mais eficiente forma para que os próprios seres humanos percebam que independente de sua origem, credo, raça, todos são basicamente iguais.
Paralelamente ao fato de que os Jogos foram interrompidos e prejudicados pelas guerras, pelas divergências ideológicas e, até, pelo terrorismo (em 1972) é importante também observar como o incrível desenvolvimento humano deste século beneficiou tremendamente as Olimpíadas. Com efeito, hoje, diante das facilidades do transporte, não apenas atletas, dirigentes e jornalistas mas também turistas vivenciam, onde quer que ocorram, as competições. O mundo todo acompanha as disputas sendo a única dificuldade maior, naturalmente, o fuso horário, o que porém não desestimula os que querem ver os Jogos graças ao progresso da tecnologia que faz com que a Austrália esteja a um simples girar de botão do aparelho de TV da sala de cada pessoa. Hitler, nos seus projetos megalomaníacos, acalentou, após os Jogos de 1936, o sonho de construir um estádio para 400 mil pessoas a fim de abrigar novamente a competição. Hoje, isto não é necessário: bilhões de pessoas, em toda a face da Terra (e até mesmo no espaço) estão conectados a tudo o que estará acontecendo naquele longínquo país, nas próximas duas semanas, pelos satélites e pela televisão.
O sonho de um mundo sem guerras, sem preconceitos, sem desentendimentos entre os homens está ainda muito longe de se realizar. Não se pode esquecer que, ao lado do brilho das Olimpíadas, há a tristeza da fome, da miséria, da doença que afetam ainda um terço da Humanidade. Apesar do fim da guerra fria, há pouco mais de uma década, o mundo ainda está dividido, os países ainda não encontraram meios para estabelecer uma convivência pacífica. É imperioso porém perceber em realizações como os Jogos Olímpicos a continuação da vontade de se forjar uma nova Humanidade, sem fronteiras, sem ódios, em que as únicas formas de rivalidade ocorram em um campo esportivo. Lembrando, principalmente, que quando a competição termina, se produz a confraternização dos oponentes.





