O Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) voltou à carga, novamente, depois de alguns meses de aparente trégua (desde maio não eram registradas manifestações de porte por parte da entidade), com invasões de prédios públicos. Em pelo menos 10 dos 27 Estados brasileiros houve ações, que incluem a ocupação de prédios públicos, tudo sob a alegação da demora no processo de reforma agrária, exigindo-se a liberação imediata de R$ 2 mil por família assentada. Comentando as manifestações, o ministro da Justiça, José Gregori, afirmou que eram atos de motivação eleitoral, levando em conta o fato de que as invasões ocorram justamente na época das eleições.
Seria útil, sem dúvida, que o ministro da Justiça tivesse a visão para perceber que em um estado democrático quase tudo tem motivação política e eleitoral. O fato de se estar às vésperas das eleições municipais é um detalhe, mas é certo que na dinâmica mesmo da ação pública, toda e qualquer atitude, a partir do pronunciamento de um presidente da República para comemorar o Dia da Independência, até a invasão de prédios públicos por membros do MST, passando aí por uma infinidade de situações, apresentam conotação política.
É possível contestar determinada forma de agir, e sem dúvida invasões de prédios públicos se situam quase no mesmo patamar de invasões de propriedades como atos que não podem merecer apoio, até porque constituem atitudes que ferem a lei. O que porém fica claro não é apenas o aspecto político mas, e principalmente, o fato de que certas manifestações acabam constituindo, em muitos casos, o único modo de chamar a atenção de autoridades que, de outro modo, persistem num imobilismo inaceitável.
É possível, diante desta e de muitas outras situações, perceber que determinadas atitudes podem ser tidas mais como uma reação do que propriamente como uma ação. O MST tem adotado ao longo dos anos uma série de medidas que são totalmente ilegais. Entretanto, percebe-se que aparentemente só surgem ações de governo visando encontrar soluções para os dramas dos sem-terra em seguida às manifestações e atitudes do MST. Uma vez resolvida a questão imediata (seja através da reintegração de posse de terras invadidas ou pela saída dos invasores de prédios públicos) não acontece mais nada. O governo volta à sua inação costumeira até que, outra vez, surjam atitudes mais graves como a atual.
O desejável seria que o governo federal mudasse esta postura, passando a agir sem ter de ser pressionado a cada passo. Isto porém não dá a impressão de ser possível, diante do quadro político que se descortina no País. O ministro da Justiça vê motivação eleitoral na invasão de prédios públicos pelo MST, mas aparentemente não percebe a inatividade do governo, principalmente do Legislativo, às vésperas de cada pleito. O Legislativo, tanto em nível federal quanto nos Estados, recomeçou a operar esta semana, em mais um ‘‘esforço concentrado’’. Antes do final do mês, porém, como se sabe, os parlamentares eleitos pelo povo vão voltar às suas bases para as campanhas, ou como candidatos ou a fim de apoiar correligionários.
Por causa disto, também, ficam prejudicadas as atividades efetivas do governo. Não é apenas a reforma agrária, que é a questão focada pelo MST, mas muito mais fica em plano secundário, em função do pleito. Uma coisa leva a outra: o governo não age, entidades como o MST se mobilizam e, aproveitando mesmo o clima de véspera de eleições, provocam manifestações. Se o governo não fosse tão omisso na sua atividade, seguramente pressões como esta que o MST faz – outra vez – seriam desnecessárias.

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