Às vésperas da abertura dos Jogos Olímpicos, a principal competição esportiva do mundo, a Organização das Nações Unidas encerrou a maior reunião de líderes de sua longa e difícil história com a determinação de modernizar o organismo para que se possa enfrentar os imensos desafios com que o homem se defronta, como as aparentemente invencíveis guerra e miséria, além dos novos, entre os quais o aquecimento do planeta e a Aids. A Declaração do Milênio, que descreve a ONU como o ‘‘indispensável local comum de toda a família humana’’, foi o último ato de uma Cúpula representada por todos os seus 185 membros, sendo 147 chefes de Estado ou de Governo. O documento diz que os líderes ‘‘não pouparão esforços’’ para liberar a Humanidade da guerra, da extrema probreza, da ameaça de desastre ambiental e para promover a democracia e o império do direito. A declaração marca objetivos específicos para salvar milhões da miséria até o ano 2015. O documento estabelece algumas metas concretas, como reduzir pela metade a proporção da população mundial sem acesso à água potável (atualmente 20%) e que dispõe para viver menos de um dólar por dia (22%); assegurar o acesso de todas as crianças à educação primária; reduzir em menos de três quartos a taxa de mortalidade materna e em dois terços a de mortalidade infantil; deter e reverter o avanço do vírus HIV e fazer frente à Aids, à malária e outras enfermidades; fornecer assistência especial aos órfãos da Aids.
A Declaração do Milênio é fixada com uma meta para alcançar até o ano 2020 ‘‘uma significativa melhoria na vida de pelo menos 100 milhões das pessoas que vivem em bairros pobres’’. O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, disse que com a moderna tecnologia essas metas são plenamente factíveis. O documento defende o ‘‘combate a todas as forças de violência contra a mulher e a implementação da Convenção para a eliminação de qualquer forma de discriminação contra as mulheres’’. Essa Convenção é um dos 25 instrumentos legais firmados ou ratificados por dezenas de chefes de Estado ou de Governo durante a Cúpula iniciada na quarta-feira, na sede da ONU.
A Organização poderia se beneficiar muito se buscasse no esporte, em especial nos Jogos Olímpicos, maior inspiração. Na Grécia Antiga, berço da disputa, as Olimpíadas eram consideradas de tal modo importantes que eventuais guerras que estivessem sendo travadas na época da competição eram suspensas. Não foi o que ocorreu com os Jogos na Era Moderna, reintroduzidos pelo Barão de Coubertin, em 1896. As competições foram suspensas em 1916 (Primeira Guerra Mundial) e também em 1940 e 1944 (Segunda Guerra Mundial). Mas voltaram com toda força, crescendo cada vez mais, após os conflitos. Em 1948, numa Londres ainda com as cicatrizes do bombardeio nazista, o esporte se uniu para mostrar sua mensagem de entendimento, superando ódios. Nos anos subsequentes, houve muitas dificuldades, boicotes, até terrorismo. Entretanto, o ideal olímpico se mostrou superior, fortaleceu-se e hoje, na última Olimpíada do milênio, haverá mais países representandos do que o total com assento na ONU. E, sem dúvida, um espírito muito mais elevado do que o que se observa no organismo político mundial.
Mais que o chamado ideal olímpico, o espírito que norteia a disputa, a integração de seres humanos de todos os continentes, de todas as raças, unidos pela mesma chama, constitui a lição principal. Ali se afirma, sem a necessidade de ‘declarações do milênio’, que os seres humanos podem viver em paz, concórdia, harmonia e amizade. É sem dúvida um primeiro passo, uma lição que se for bem aprendida poderá mostrar para os sisudos membros da ONU como é possível ao homem viver em paz neste seu planeta.

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