Desfiles militares e cívicos representam, sem dúvida, um fator importante na comemoração que se faz a cada ano da principal data do Brasil, o Dia da Independência. Paralelamente, porém, outras manifestações que vêm ocorrendo nos últimos tempos, no mesmo dia, representam um complemento importante dentro desta etapa nova que se vive com o crescimento da consciência de cidadania em todo o País. O ‘Grito dos Excluídos’, que anualmente mobiliza mais gente, é por si um avanço, na medida mesmo em que desperta a atenção para a importância da participação popular na luta por melhores condições de vida, por respeito à dignidade humana, o que é básico num projeto que objetive responder às necessidades de uma crescente (e ainda carente) população. É possível contestar certas posições, criticar mesmo atitudes, mas não há como negar a importância da mobilização, que constitui um verdadeiro despertar do povo que se percebe cidadão, com deveres e com direitos.
A importância deste movimento e a mudança que se observa no comportamento humano, não apenas no Brasil, pode ser percebida com a informação de que o ‘Grito dos Excluídos’ passará a ser internacional, com a programação de manifestação na praça Union Square, nas proximidades da sede das Nações Unidas, em Nova York, no dia 12 de outubro, junto a representantes de toda a América Latina. A data é adequada, lembrando a descoberta da América, em 1492, por Cristovão Colombo. Um dia importante para a civilização européia, mas nem tanto para os habitantes do continente até então desconhecido e que foi vítima de exploração e genocídio.
Não se trata de pensar em cobranças antigas, mas de perceber que em termos continentais também se faz necessária esta conscientização, que tem como maior e mais importante objetivo o reconhecimento dos direitos dos excluídos na América Latina, incluindo não só os descendentes dos antigos moradores do continente, mas também os milhões de miseráveis fustigados por precárias condições em toda esta imensa e rica área. Assim como ocorreu no Brasil, também a injustiça, a opressão, o abuso fizeram parte da História latino-americana, sendo até possível considerar que em alguns países o quadro de exploração foi ainda pior. Os grupos governantes surgidos na esteira do movimento de emancipação não tiveram preocupações no sentido de garantir melhor situação de vida a seus povos, explorados e oprimidos ao longo dos séculos.
A hora é de mudanças, de despertar. O Brasil tem se beneficiado muito desta consciência cidadã que emergiu em seguida à redemocratização de 1985 e que ganhou corpo, efetivamente, com as transformações econômicas dos últimos anos. Já havia, durante o primeiro Governo pós-ditadura, o germe deste sentimento, que tentou se consubstanciar na forma dos ‘fiscais do Sarney’, durante o primeiro Plano Cruzado. Infelizmente, a exploração política da época, o interesse nem um pouco mascarado de transformar o plano em um suporte para as eleições, fez naufragar o programa e provocou até a ridicularização de quem pretendeu assumir com força o conceito de participação na cidadania.
O sucesso do Plano Real, que teve como grande base o apoio popular, abriu novas perspectivas que se tornaram ainda mais fortes com o correr dos tempos. Hoje, o Brasil vivencia uma fase nova em que manifestações como o ‘Grito dos Excluídos’ representam parte importante na própria mudança de conceitos. A internacionalização desta manifestação, o esforço para criar em toda a América Latina esta mesma idéia, representa um fator adicional no quadro que deve ser irreversível da tomada de posição do povo como legítimo agente de seu próprio destino.

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