EDITORIAL
As maiores economias da América Latina estão retomando um ciclo de crescimento sólido, enquanto a Argentina manqueja de lado, observa matéria distribuída pela agência Dow Jones. O Brasil e o México reportaram expansão econômica acima do esperado de 3,9% e 7,6%, respectivamente, no segundo trimestre. Em contrapartida, a Argentina produz uma notícia ruim atrás da outra. No final do mês passado, a venda de 500 milhões de euros em eurobônus teve uma recepção tímida, o que não chegou a surpreender, diante da situação real da economia no país. Logo em seguida, o Ministério de Economia da Argentina reduziu novamente a sua previsão de crescimento para este ano, a um nível entre 2,5% e 3%. Os economistas, no entanto, são ainda mais pessimistas e dizem que o país só deve crescer 2% em 2000. O índice Merval, referencial da Bolsa de Buenos Aires, acumula uma queda de 13% neste ano e o setor empresarial continua pessimista, uma vez que taxas altas de juro engessam as esperanças de uma atividade mais robusta. Desespero e aflição são alguns dos termos usados pela imprensa local e internacional para descrever o sentimento entre a população, que desfrutava, até há pouco tempo, um dos padrões mais altos de qualidade de vida da região.
Esse não é um cenário que o governo do presidente Fernando de la Rúa previu quando assumiu o poder em dezembro do ano passado. Importa lembrar que De la Rúa herdou uma economia já em situação problemática. Mas o número de pessoas que invadem as ruas para protestar aumentou no mesmo ritmo que a taxa de desemprego, que gira atualmente em torno de 15%. A questão crucial é que a equipe econômica pode estar sem opções fiscais ou monetárias no curto prazo. A paridade do peso argentino ao dólar, adotada como forma de conter a hiperinflação, torna as exportações menos atrativas, especialmente em relação aos produtos do Brasil, maior parceiro comercial do país, que desvalorizou sua moeda há mais de um ano. Completando a receita, um severo programa fiscal, formulado com a assistência do Fundo Monetário Internacional, prevê aumento de impostos e gastos contidos. São medidas necessárias, mas não são diretrizes que antecipam crescimento rápido.
Confirmando a melhor situação brasileira, o conceituado periódico britânico Financial Times informou esta semana que o Brasil atingiu confortavelmente a meta orçamentária acertada com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para o primeiro semestre deste ano, um dado considerado pelos investidores internacionais como um dos mais importantes barômetros da saúde da economia. O superávit do orçamento primário foi de R$ 23,7 bilhões entre janeiro e julho, R$ 7,6 bilhões a mais que a meta incluída no acordo com o FMI. O jornal assinala que os expressivos resultados do orçamento do Brasil nos últimos 12 meses vêm servindo como âncora para a crescente recuperação econômica após a desvalorização do ano passado, ajudando no resgate da confiança na política econômica governamental e criando condições para taxas de juros mais baixas. O artigo rememora que na época da desvalorização, muitos observadores duvidavam da habilidade do Brasil em cumprir com um plano de austeridade fiscal tão severo pois a economia estava em recessão.
São situações diferentes em dois maiores países da América Latina, mas que devem ser analisadas com a devida cautela. Nunca é demais lembrar que crises na Argentina são seguidas de situações idênticas no Brasil, que deve manter atenção redobrada para permitir que o atual surto positivo da economia persista, atingindo o elevado número de brasileiros que ainda sofre com os efeitos danosos da recessão dos últimos tempos.





