Uma análise menos aprofundada da Independência brasileira indica que o famoso Grito do Ipiranga representou a atitude de um dirigente sem praticamente nenhuma ligação com as massas. A conclusão é correta, mas incompleta. De fato, D. Pedro I, que era o regente da Coroa portuguesa e deveria suceder a seu pai, D. João VI, como rei de Portugal, o que lhe daria, quase que automaticamente, o poder também no Brasil, não poderia pretender à época estar representando a população brasileira ao estabelecer a separação entre Brasil e Portugal, encerrando o período Colonial e criando assim uma nova nação. Vale assinalar que, com sua formação absolutista, a representação popular era o que menos importava ao libertador do Brasil. Todavia, o que é incontestável é que ele teve a coragem de provocar uma situação, dando ao Brasil uma nova posição ‘‘no universo, entre as nações’’, conforme está expresso no Hino que ele mesmo compôs após a Proclamação. E há um elemento adicional da maior relevância a ser incluído em qualquer análise da Independência brasileira: é mais que certo que qualquer outra solução para a libertação do Brasil da situação de Colônia portuguesa acabaria resultando no que ocorreu em toda a América espanhola, isto é, a fragmentação em numerosos pequenos países. Foi a força do cetro real de D. Pedro que garantiu a unidade quase plena do território brasileiro.
A comprovação desta tese é simples, bastando evocar o quadro de inquietude política vivido pelo Brasil no período das regências, depois que Pedro I abdicou em nome de seu filho, então com 5 anos. Enquanto se esperava a maioridade do que viria a ser Pedro II, o Brasil viveu 10 anos de dificuldades políticas, com lutas armadas (algumas com franca motivação seccessionista) em vários pontos do território nacional. Quando a situação atingiu um ponto de terrível perigo, surgiu a solução de se antecipar a maioridade do príncipe. Assim, aos 15 anos, Pedro II ascendeu ao trono e, entre tantos feitos, manteve a integridade territorial do país-continente que herdou.
O reconhecimento de que a Independência, que se comemora hoje, foi ato partido da cúpula, sem a participação maior do povo não diminui a importância do fato, nem modifica a História. Serve, ao contrário, para rememorar as dificuldades vividas pelo Brasil e pelo seu povo ao longo dos séculos. A colonização portuguesa, a monarquia com toda a nobreza e suas idéias sobre o nulo papel do povo, a plebe, nas decisões de Governo faziam parte do quadro natural das coisas. As mudanças começam a surgir com a República e a democracia, embora seja lícito observar que os primeiros anos do novo regime tiveram também pouca participação popular. Os governantes estabeleceram uma nova nobreza. Foi com a Revolução de 30 e, principalmente, a redemocratização de 45 que as coisas efetivamente começaram a se modificar. E é certo que foi a partir do novo retorno à democracia, em 1985, que se iniciou a fase cidadã deste país.
É possível considerar algo fora de realidade a afirmativa do então presidente da Constituinte, Ulysses Guimarães, ao chamar de ‘Constituição cidad㒠a Carta de 1988. Não há, porém, como negar que começou então a etapa mais expressiva da participação popular na vida e nas decisões do Brasil. O povo, praticamente ignorado ao longo dos pouco mais de 300 anos de Brasil-Colônia, igualmente deixado de lado ao longo do Império e não muito participante durante a Velha República, assumiu, a partir dos anos 80, seu verdadeiro papel como real detentor do poder democrático. E tem se destacado, a partir de então, de modo concreto, tornando-se enfim o que deve ser, o grande elemento formador de um Brasil que, finalmente, começa a encontrar seu destino.

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