EDITORIAL
A reação de algumas autoridades e de ex-membros do Governo ao plebiscito nacional da dívida externa, organizado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), juntamente com outras entidades, revela uma lamentável postura absolutista. O ministro Pedro Malan considera que essa questão está fora de lugar, de tempo e de foco. Já o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Loyola, prefere o perigoso caminho da ironia ao afirmar que a CNBB tem tanta autoridade para falar sobre dívida quanto o Banco Central para falar de religião. O ex-ministro Mailson da Nóbrega, mais enfático, diz que ninguém vai acreditar nesta lorota. Já em Minas, o governador Itamar Franco, que participou do plebiscito, votando em aberto e apontando o não nas três perguntas previstas na cédula de votação (se o Brasil deve manter o acordo com o FMI; se deve continuar pagando a dívida externa sem auditoria, conforme previa a Constituição de 1998; e se os governos federal, estadual e municipal devem continuar usando grande parte do orçamento público para pagar a dívida interna aos especuladores), criticou membros do governo que combateram o plebiscito. Lembrou que grande parte deles se formou nos Estados Unidos, onde há tradição de consultas populares e referendos. Itamar lembrou ainda que após o período em que ocupou a presidência da República, a dívida externa aumentou aproximadamente 400%.
A iniciativa da CNBB traz em si um germe positivo: é precisamente a idéia de se fazer a população participar de modo cada vez mais direto das decisões de Governo, o que vai de acordo com o conceito de cidadania e com os princípios da democracia representativa. A postura quase que imperial de alguns membros e ex-membros do Governo, nesta como em tantas outras questões, apenas serve para evidenciar a falta de conhecimento a respeito da democracia e do papel que as autoridades devem exercer na gestão da coisa pública. Persiste a idéia de que o Governo está acima do povo, somada à clara interpretação de alguns que consideram que a população não sabe o que é melhor para si e para o País. Vale insistir em que esta postura é típica dos regimes totalitários, mas é sempre oportuno lembrar que os vícios da ditadura são difíceis de superar.
O povo, além de ser o legítimo detentor do poder, tem sido a grande vítima dos desacertos e abusos dos seus dirigentes ao longo dos tempos. É o primeiro a pagar o alto preço ditado pela inflação. Terríveis sacrifícios foram impostos à população em nome das necessidades nacionais, sem que houvesse uma real contrapartida de benefícios. Só recentemente é que começou a crescer a consciência de cidadania que está, efetivamente, provocando uma verdadeira revolução no País. Falta, porém, como tem ocorrido quase que permanentemente, a grande mudança na mentalidade dos que governam e que continuam como fica evidente na reação face à iniciativa da CNBB , com a idéia equivocada de que estão acima e além do povo e das leis, não devendo satisfação dos seus atos, por mais graves que sejam.
A afirmativa, entre tantas, do ex-presidente do BC, sr. Gustavo Loyola, demonstra de modo claro este tipo de postura. Efetivamente, ele tem razão quando diz que o Banco Central não tem autoridade para falar de religião. Na verdade, diante de alguns recentes escândalos, envolvendo antigos dirigentes do BC, é possível considerar que o estabelecimento sequer dá a impressão de ter autoridade até para comentar a economia. Todavia, é preciso ficar claro que tanto a CNBB, pelo que representa, quanto outras entidades não- governamentais têm plenas condições de propor discussões políticas, de chamar o brasileiro a se pronunciar, pois é desta maneira também que se exercita de modo efetivo a soberania do povo.





