O sonho de Simon Bolivar, de integração da América Latina, revelou-se desde o começo uma tarefa quase impossível. Nem mesmo os países de língua espanhola conseguiram atingir isto, ocorrendo em seguida às lutas contra o colonialismo o surgimento de numerosas pequenas e média nações, cada uma com seus projetos e propósitos. Hoje, diante de um mundo em que os blocos são quase que uma necessidade, esta integração é ainda mais necessária. Todavia, continua a ser difícil de concretizar, inclusive devido às dúvidas e temores que cercam todo o assunto. Os países menores temem, com certa razão, idéias hegemônicas dos mais fortes. Embora não haja, apesar de algumas guerras que envolveram nações latino-americanas, inclusive Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, um tipo de preconceito ou medo em relação à questão militar, persistem as dúvidas sobre a possibilidade de uma integração que permita a manutenção da integridade política.
Para conseguir sucesso nesta ingente empreitada, é preciso superar estes temores desde logo. E é interessante realizar-se um trabalho que possa alcançar aos poucos esta integração. A reunião entre os doze presidentes dos países da América do Sul, que se realiza hoje e amanhã em Brasília, pretende iniciar o processo, convertendo um velho sonho americano em realidade: unir a Comunidade Andina e o Mercosul. Este plano visa inicialmente, como prioridade, a conexão de estradas, rios, telecomunicações e energia com o objetivo de obter uma maior integração dos mercados regionais. O plano foi entregue ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e será apresentado na reunião de Brasília, que o considera um tema fundamental junto a um esperado impulso à negociação comercial da Comunidade Andina de Nações (Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela) e o Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, com Chile e Bolívia como associados).
As principais obras já realizadas são a rodovia entre Venezuela e o Norte do Brasil, a que liga Bolívia e Peru ao Oceano Pacífico, e o gasoduto Bolívia-Brasil, que colocará as reservas bolivianas nos centros industriais de São Paulo. A interconexão fluvial é outro velho sonho da América do Sul, com a possibilidade de navegação total de 50 mil km. O plano deve priorizar a solução dos obstáculos à navegação do eixo norte-sul, que interligaria os rios Orinoco, Amazonas e da Prata. O plano de ação contempla também as telecomunicações, com a prioridade de fortalecer os organismos reguladores e homogeneizar suas normas, de forma a facilitar os grandes investimentos privados: desde fibra óptica e satélites a acessos à Internet.
Ainda que os assuntos da pauta sejam a construção de uma infra-estrutura que una fisicamente os 12 países, este encontro sem precedentes vem sendo visto com receio em alguns países da região. As autoridades brasileiras negaram repetidas vezes que pretendam transformar o País em líder da região. O que o País afirma é a necessidade de manter sua independência. O fracasso de uma nova rodada de negociações na Organização Mundial do Comércio (OMC), o avanço inexorável na direção da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e as poucas esperanças de um acordo com a União Européia, principalmente em matéria agrícola, empurraram o Brasil para este passo histórico. ‘Somar’, ao invés de criar barreiras, é a mensagem que vem repetindo à exaustão a diplomacia brasileira nos últimos meses, em países da região, inclusive em Suriname e Guiana, que participam pela primeira vez de uma reunião de países sul-americanos.

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