EDITORIAL
A crítica da população aos horários eleitorais gratuitos no rádio e, com maior enfâse ainda, na TV, é verdadeiramente avassaladora. A maioria sequer acompanha tais programas, usando os horários como um tipo de intervalo para descanso. Há também os que assinaram TV a cabo nesta época, já pensando em buscar alternativas ao horário. E também junto àqueles que acompanham os programas por dever profissional, como os jornalistas políticos, só ocorrem críticas. Os programas de divulgação dos candidatos a vereador são os maiores alvos dos questionamentos, criticando-se desde a falta de propostas concretas que deixem pelo menos a certeza de que os postulantes sabem o que é que poderão fazer nas Câmaras Municipais, até o uso abusivo de apelidos e outros apelos visando conquistar o eleitor mais pelo folclore do que em função de uma diretriz objetiva.
É imperioso insistir em que a criação dos horários de propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão representaram um excepcional avanço democrático. Vale rememorar que embora a República tenha mais de 100 anos, a verdadeira democracia, aquela em que o povo de fato tem poder, escolhe seus representantes sem pressões ou truques, é muito recente. Os primeiros anos da República foram marcados pelos abusos e pela fraude. Na verdade, a nobreza teoricamente extinta com a Proclamação do Marechal Deodoro, em 1889, trocou de nome. Acabaram-se os condes, duques e barões, surgindo no seu lugar as excelências, que formam os corpos legislativos e executivos de todo o País. O nobre que acompanha, principalmente nos Legislativos, o nome dos representantes, sejam eles vereadores, deputados ou senadores, é herança daquela época, assim como as excelências com que um dos nobres se dirige a seu companheiro.
A Revolução de 30 foi um movimento contra parte desta situação. A redemocratização de 45 trouxe inovações que criaram condições melhores para a representatividade real. Novidades surgidas a partir daí, como a cédula única, a limitação da propaganda paga e os horários eleitorais gratuitos serviram para garantir aos menos aquinhoados condições mais favoráveis de competir pelo voto. O excepcional valor do horário gratuito no rádio e na TV pode ser aquilatado pela verdadeira revolução do voto que ocorreu no País durante o período da ditadura. A grande derrota do Governo totalitário no pleito de 74 teve como uma das maiores causas a propaganda eleitoral gratuita, que permitiu que o povo fosse informado melhor sobre toda a situação do País à época. De tal modo isto influiu que nos pleitos seguintes a ditadura estabeleceu sérias restrições àqueles programas, tentando evitar sua força.
A ditadura terminou, o Brasil tem hoje uma democracia política realmente concreta, as eleições são livres, existe uma presença efetiva do povo com a participação de homens e mulheres, os jovens com mais de 16 anos podem votar, os analfabetos também. Todavia, considerar que por causa disto se pode prescindir de institutos como o horário eleitoral gratuito é pensar perigosamente. O preço da liberdade é a eterna vigilância, dizia o slogan de um antigo partido político, que continua a valer.
Democracia não é presente, é conquista. O Brasil lutou e sofreu muito para superar os últimos 21 anos de ditadura e precisa manter a liberdade com cautela, esforço e permanente vigilância. Os absurdos do horário eleitoral gratuito não devem servir como meio para atacar a idéia. O que os partidos, principalmente, têm de fazer, é valorizá-lo, com um trabalho de orientação de seus candidatos. Quanto ao eleitor, sua tarefa é a de se manter atento e mesmo em meio a tanta bobagem escolher o melhor para si e para seu país.





