EDITORIAL
A cúpula do Mercosul, marcada para esta semana em Brasília, representará um esforço no sentido de integrar o mapa da América do Sul, embora sua própria geografia continue estremecida pelas desigualdades, crises econômicas e desconfianças mútuas. A complicada aliança de Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai, associada externamente ao Chile, tentará uma união com as ameaçadas democracias da Comunidade Andina das Nações (CAN), formada por Bolívia (também sócia externa do Mercosul), Colômbia, Equador, Peru e Venezuela. O encontro reunirá 12 presidentes de uma região que representa um mercado de 340 milhões de habitantes, com um Produto Interno Bruto (PIB) de 1,21 trilhão de dólares. O subcontinente tem uma superfície de 17,29 milhões de km2 e uma densidade de quase 20 habitantes por km2. Comparável a outras regiões em número de habitantes (340 milhões contra 396 milhões da América do Norte e 291 da União Européia), a América do Sul está atrasada em relação a seu Produto Interno Bruto, que representa 13,6% do PIB do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (formado por Estados Unidos, Canadá e México) e 18,5% do PIB da União Européia. Sua renda per capita, de 3.563 dólares anuais, está muito distante dos mais de 22.000 de seus vizinhos do Norte e dos europeus.
Este quadro dá força à necessidade de uma união mais compacta destinada a aumentar o poder de negociação ante os Estados Unidos na Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e perante a União Européia (UE). O Brasil, cujo PIB equivale a 46% de toda a América do Sul, tem posição de respeito e não se mostra disposto a adotar postura de inferioridade ante Washington. Entretanto, enfrenta também temores por parte de seus sócios mais modestos face a possíveis pretensões hegemônicas.
Um seminário de preparação, realizado no começo do mês, antecedeu a cúpula prevista para esta semana. Em meio a um cenário de crises econômicas constantes, democracias frágeis e miséria crescente, ex-presidentes, ministros, parlamentares e intelectuais de quase todos os países da América do Sul reuniram-se para dar um dos primeiros passos com vistas à formação de um bloco econômico e social que englobe todo o subcontinente. Os participantes do seminário A Organização do Espaço Sul-Americano, promovido pelo Itamaraty, coincidiram em qualificar como inevitável a formação do novo bloco, que deverá consistir basicamente na fusão do Mercosul com o grupo de nações da Comunidade Andina (Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e Venezuela).
As dificuldades que o Mercosul enfrenta, notadamente os choques envolvendo Brasil e Argentina, tornam duvidoso o êxito pleno deste encontro. Todavia, é fora de dúvida que uma política de união continental representa passo importante neste novo quadro da economia mundial. Os blocos estão substituindo as nações. Os números sobre a América do Sul indicam uma situação de pobreza terrível, colocando a região em posição de inferioridade em comparação com demais agrupamentos. Esta realidade, porém, indica que uma aproximação entre os países da América do Sul constitui uma alternativa melhor do que o quadro atual. Obviamente, a diferença entre os países que compõem a região provoca sérias dificuldades para a concretização de um projeto comum. É importante, porém, que haja um esforço intenso objetivando aplainar as arestas. É imperioso considerar que, no atual quadro da evolução econômica do mundo, até mesmo a demora para o encontro de novas alternativas de união constitui fator que torna ainda mais difícil a situação em toda a América do Sul.





