A inflação volta a preocupar, apesar do esforço no sentido de se minimizar certas dificuldades. Os fatos, porém, são sérios. O IGPM de agosto deverá situar-se entre 2,3% e 2,5%, mais alto que o 1,57% registrado em julho, segundo previsão do chefe do Centro de Estudos de Preços da Fundação Getúlio Vargas do Rio, Paulo Sidney Melo. Será o índice mais alto do ano. O economista, porém, acredita que em setembro, a inflação medida pelo IGPM será menor – em torno de 1% –, e vai depender do comportamento apenas dos produtos agrícolas, que podem sofrer altas de preços em função da geada e da estiagem. Em outubro ou novembro, ele ainda projeta um IGPM próximo a zero, inclusive porque não se prevê aumento de tarifas, os produtos agrícolas estarão com variações positivas baixas e até negativas e não há renda suficiente para fazer uma pressão através do aumento da demanda. Já em dezembro, o IGPM poderá subir um pouco em função do período natalino. No ano, Sidney Melo prevê o IGPM próximo a 8%. Já o IPC (FGV) deve, conforme avalia, acumular alta entre 6% e 7% em 2000. Ele não quis fazer previsões para 2001, mas disse que o comportamento dos preços vai depender da variação dos valores do petróleo.
Por seu turno, o presidente da Associação Paulista de Supermercados (APAS), Omar Assaf, antecipou, durante contato com a imprensa, que os preços dos produtos sazonais dão sinais de queda. Como exemplo, citou o leite longa vida, que há dois meses registrou alta de 100% e agora faz o caminho inverso, com queda de 50% no preço, e o café, outro produto majorado em 25% há um mês, e que já retomou o patamar anterior. A farinha de trigo também faz parte da lista de produtos que sofreram alta de preços nos últimos dias (em torno de 10%), mas poderão cair, na visão do empresário. Já os produtos industrializados estão com os preços estáveis e não deverão registrar nenhuma alta. Pesquisa preliminar da APAS aponta que as vendas cresceram em torno de 2% no período, comparadas aos primeiros sete meses do ano passado. Para 2000, a projeção é fechar o ano com acréscimo de pelo menos 3,5%. Segundo Assaf, o crescimento da massa salarial não está sendo canalizado para a compra de alimentos, e sim para bens semiduráveis e duráveis.
O que surge, porém, de modo claro em todas estas (e também em outras) antecipações é que o índice inflacionário está em alta, o que sempre provoca preocupação. Não se pode, vale sempre lembrar, fazer comparações entre o possível índice de 7% a 8% este ano com os percentuais alcançados antes do Plano Real. Naquela época, havia uma outra realidade, incluindo a indexação que alimentava a inflação e produzia números elevadíssimos. Deduzida, porém, a indexação, a taxa de inflação brasileira era baixa. Hoje, sem indexação, os 8% em um ano representam uma alta real que afeta os assalariados e também a ampla faixa que sobrevive no mercado informal, sem lembrar, naturalmente, os desempregados.
O desafio não é só conter a inflação, mas ao mesmo tempo oferecer condições melhores para que a população possa ter possibilidade de renda capaz de garantir uma vida digna. Trata-se ainda de insistir na necessidade de ações que possibilitem um reaquecimento da atividade econômica, sem pressionar a inflação, o que parece complicado. É, porém, alternativa possível, através de uma política de estímulo à produção e ao trabalho, produzindo o crescimento sem inflação. E é, neste momento, a mais séria necessidade para evitar que a nova pressão inflacionária produza ainda mais dificuldades para a população brasileira, que merece uma política capaz de garantir-lhe uma vida melhor.

mockup