EDITORIAL
O fim da Guerra Fria, com o esboroamento da União Soviética, a queda do Muro de Berlim e a reunificação da Alemanha criaram a ilusão sobre a possibilidade do estabelecimento de uma nova era na vida do mundo. Com efeito, o término da ameaça da confrontação nuclear tornava natural a idéia segundo a qual as potências mundiais poderiam direcionar os imensos investimentos em armas para atividades mais produtivas, capazes de beneficiar não apenas as populações daqueles países, mas os habitantes de todo o planeta. E é certo que não apenas nações subdesenvolvidas da África ou da América Latina necessitam de muita ajuda para mudar sua situação e resgatar da miséria e da fome milhões de pessoas. Há também uma realidade de dificuldade nos países mais ricos. Dados oficiais publicados ontem pelo jornal Vremia MN, de Moscou, revelam que pouco mais de um terço da população russa (34,7%), ou 50,5 milhões de pessoas, vivem abaixo do patamar oficial de pobreza. Nos Estados Unidos, talvez a potência mais beneficiada pela mudança geopolítica do mundo, a situação não é muito diferente. O quadro de miseráveis naquele país é muito elevado, face à própria condição geral da vida nos Estados Unidos.
Com tudo isto, a questão bélica ainda não foi resolvida. Na corrida pela presidência dos Estados Unidos, que está se desenvolvendo, os republicanos apresentam um novo argumento: oito anos de administração democrata fizeram do Exército americano uma força em declive, com um orçamento muito reduzido e mal preparada para o combate. Desde a dissolução da União Soviética, os efetivos se reduziram: as Forças Armadas americanas empregam atualmente 1,4 milhão de pessoas, contra os 2,2 milhões de antes. O número de divisões ativas do Exército passou de 18 para 10, a Marinha reduziu de 13 para 12 os seus grupos de combate, e a aviação passou de 22 para 12 grupos. Objetivo foi conservar uma capacidade que permita afrontar os conflitos maiores na Coréia ou no Golfo.
A administração democrata responde com um plano quinquenal, que começa este ano, e brinda as Forças Armadas com seu primeiro aumento de gastos militares desde a Guerra Fria. Os salários das FFAA aumentaram 4,8% este ano e uma nova alta, de 3,7%, está programada para o próximo ano. Mesmo sem um verdadeiro rival dos Estados Unidos no plano militar, o fato é que o atual orçamento americano para a defesa é, de longe, o primeiro do mundo, com 289 bilhões de dólares no ano 2000.
Já na Rússia, o presidente Vladimir Putin anunciou um aumento no orçamento da defesa para 2001 e um reajuste de 20% no soldo dos militares, duas medidas adotadas depois que a tragédia com o submarino Kursk expôs ao mundo a pobreza e a decadência das Forças Armadas russas. Vários chefes militares, a começar pelo ministro da Defesa, Igor Sergueiev, falaram na ocasião da inoperância dos serviços de resgate russos no caso Kursk e denunciaram que o Exército recebe menos de 50% do que está previsto no orçamento. O orçamento da Defesa, originalmente de cinco bilhões de dólares, será aumentado em cerca de um bilhão de dólares, estimou o jornal Kommersant, que no enquanto questionou as possibilidades financeiras do Estado.
A fome e a miséria que afetam bilhões de seres humanos continuam em plano secundário. Com ou sem adversários, haja ou não ameaça, o espírito bélico persiste dominante no mundo. As esperanças de mudança na mentalidade, diante da inacreditável alteração no quadro político mundial, mostraram-se utópicas, perdendo para o belicismo do homem, que insiste em buscar na guerra e na destruição soluções para conflitos que deveriam ser solucionados por meio de entendimento, solidariedade e espírito fraterno.





