Editorial
Partindo da premissa de que é unânime o reconhecimento sobre a precária situação do ensino nacional, em todos os níveis - inclusive o que é objeto de interesse do tão discutido provão -, a reforma anunciada pelo ministro da Educação para o segundo grau vem em boa hora. E como já se falou muito em reformas no sistema educacional brasileiro, só fica a dúvida sobre se a prática da reforma será tão boa quanto a teoria do projeto anunciado. Se for, então daremos um passo verdadeiramente inovador e restaurador na combalida Educação brasileira.
A idéia básica formulada pelo ministro Paulo Renato Souza é bem estruturada. Ele parte da necessidade, reconhecida por todos, de se fazer mudanças concretas no currículo escolar, para libertar a Educação de um sistema arcaico e dissociado da realidade e da vida moderna. Os currículos do ensino brasileiro, notadamente no primeiro e segundo graus, parecem ter sido feitos para outro país, privilegiando (e exigindo) coisas que nada têm a ver com os desafios da vida e as necessidades dos estudantes brasileiros. É tamanha a disparidade que o certificado de conclusão do segundo grau simplesmente não serve para nada. Só serve para atestar que um jovem concluiu um ciclo de sua vida escolar. No mais, está tão despreparado para enfrentar o futuro quanto estava ao concluir o primeiro grau. Na melhor das hipóteses, pode fazer o vestibular e ser aprovado, se tiver sorte. Mas sequer tem condições de disputar um emprego dos mais simples, no mercado formal.
Mudar, e não apenas o segundo grau, é uma imperiosa necessidade para aproveitar efetivamente o potencial humano do País. É preciso, porém, e o próprio ministro concorda com isto, reformar bem e corretamente. A reformulação dos currículos e a carga horária maior são propósitos corretos. Do mesmo modo, a maior liberdade para a adoção de currículos diversificados é um avanço.
Mas, um fator fundamental não pode ser esquecido, pois sem ele pouca coisa vai dar certo. É preciso formar professores melhores e pagar-lhes salários maiores. De fato, mudar currículos é muito importante, mas sem agentes qualificados e dignamente pagos para operar a reconstrução da Educação em nosso país, o projeto terá o mesmo destino de outros.
É digno de registro sentir que o ministro Paulo Renato está consciente desta situação. Falando a respeito, não apenas deixou claro que será necessário pelo menos uma década para corrigir o sistema atual, como também anunciou um programa de investimentos para a melhor qualificação dos professores. Na verdade, sob qualquer ângulo que se observe a questão, este é o ponto crítico. Em qualquer ação para melhorar o nível da Educação brasileira, o passo mais importante é, precisamente, a valorização do professor, o que inclui não só cursos, mas o reconhecimento efetivo através de salários e condições dignas de trabalho para eles.
O ministro sabe disto, tanto que destaca desde logo que há falta de professores para o segundo grau. Logo, este novo projeto precisa, de imediato, cuidar tanto desta defasagem em relação ao corpo docente, como também tratar de oferecer aos que estão trabalhando condições para melhorar seu desempenho. O problema está na base. É preciso investir nela para que tudo o mais, inclusive este ambicioso programa de reformas, dê os resultados que se espera.





