EDITORIAL
A concessão de asilo político pelo governo dos Estados Unidos ao brasileiro Saleh Hage, que se disse vítima da violência em São Paulo, ganha repercussão diante da restritiva política de imigração norte-americana e coloca um novo elemento para o debate desta absurda situação que se vive hoje no Brasil. Hage deveria ser deportado logo ao desembarcar nos Estados Unidos, conforme a legislação local, uma vez que confessou ter viajado para viver lá, embora tenha passaporte de turista. Mas convenceu as autoridades da angústia de sua situação, como testemunha de uma série de crimes na vizinhança de seu estabelecimento comercial, o que lhe valeu, ainda, ameaças diretas dos marginais.
Este é o retrato mais vivo de uma situação que há muito reclama atitudes dos responsáveis. O brasileiro que conseguiu asilo nos Estados Unidos não é, sabe-se, o único que vivencia este drama. Ao contrário, seria até fácil dizer que o precedente aberto pela Imigração norte-americana pode representar uma ameaça à política dos Estados Unidos de contenção quanto aos chamados imigrantes ilegais. Com efeito, é possível dizer que a grande maioria da população vive, atualmente, esta situação de insegurança. Nos grandes, médios e pequenos centros, o quadro não é diferente. A crônica de crimes diários é imensa, a falta sequer de esperanças para uma alteração neste quadro é uma realidade. Poucos são os brasileiros que não vivenciaram, pessoalmente ou através de algum parente ou amigo, uma situação de violência. Os crimes se multiplicam enquanto as autoridades se mostram ou incompetentes ou omissas diante deste quadro.
Soa até cansativa a repetição relativa ao fato de que o cidadão, em termos de segurança, depende quase que totalmente das autoridades. Não tem armas para se defender, nem possui habilitação para usar eventuais armamentos. Precisa que seus governantes ofereçam a garantia de segurança necessária à vida em sociedade. Acontece que até agora toda a grita da população, o desespero das vítimas, o desamparo dos sobreviventes não produziu resultados palpáveis. A alternativa do comerciante paulista acaba se convertendo na luz do fim do túnel para uma sociedade desamparada. Como, porém, a maior parte dos brasileiros não pode sequer sonhar em fugir para outro país, e como, em verdade, esta não é a solução, resta ficar e insistir, embora a inação oficial desanime cada vez mais. Há um flagrante descompasso entre a realidade dura que o povo enfrenta e a falta de medidas objetivas para modificar esta situação.
Ao conceder asilo ao brasileiro, o serviço de Imigração norte-americano reconheceu que o Brasil está vivendo uma situação de guerra. Uma realidade que, infelizmente, apenas o Governo parece desconhecer, e que está deixando a sociedade civil como verdadeira refém da marginalidade. Um quadro tenebroso em que a impunidade já deixou de ser apanágio dos chamados criminosos de colarinho branco para se tornar um fato natural entre os próprios marginais. Os presídios brasileiros, superlotados, não têm a mínima possibilidade de atender à finalidade principal que seria a de recuperar os criminosos e devolvê-los em condições de se tornar elementos úteis. São, na verdade, depósitos de gente, verdadeiros caldeirões que explodem a cada momento em rebelião, fuga e mortes. Ademais, não há cadeias suficientes para atender sequer ao total de ordens de prisão que existem por todo o país. O caos se estabelece sem que o cidadão possa perceber qualquer saída. Trata-se de um quadro inegavelmente dantesco, que não pode mais persistir e que reclama dos governantes medidas que evidenciem sua disposição de garantir ao povo o mínimo de segurança que a coletividade merece.





