Alguns teóricos da economia afirmam que o crediário inflaciona. Baseiam a tese no fato de que quem compra a crédito adquire um bem sem ter dinheiro para isto. É certo que há outros fatos envolvidos, incluindo a constatação de que devido ao crédito não apenas muitas pessoas conseguem bens antes inacessíveis, como também há estímulo nos setores de produção e comércio. Não fosse o crediário, dificilmente o setor de eletrodomésticos teria alcançado os níveis de crescimento que obteve ao longo dos anos. Naturalmente, para dar ainda maior sustentação aos que contestam o crédito existe ainda a questão dos juros, que efetivamente encarecem o produto e, por extensão, pressionam os índices inflacionários. Ainda assim, e desde que o consumidor tenha consciência de sua capacidade de endividamento e busque taxas de juros menores, é certo que o crediário representa fator positivo para o ciclo da economia.
É fora de dúvida, porém, que o consórcio é um método melhor para a compra de bens duráveis, com numerosas vantagens em relação ao crediário: os juros são menores e os produtos vendidos são pagos à vista. O problema, naturalmente, é que o consorciado tem de esperar um prazo para ter o bem que deseja ou necessita, diferentemente do que compra a crédito e recebe de imediato. O fato, porém, é que o Conselho Monetário Nacional resolveu abrir um pouco mais as comportas do consórcio, ampliando prazos e permitindo a inclusão de bens que anteriormente não podiam ser alvo de tal modalidade de compras. Em relação aos consórcios, mais até do que ao crediário, o governo vem adotando política similar à do ‘stop and go’ das corridas de Fórmula Mundial. Em dado momento, corta, mais adiante abre. Justifica-se isto diante da própria fluidez da economia brasileira, ainda emergindo de uma época caótica e reaprendendo a conviver com uma moeda estável (ou quase). Esta estabilidade da moeda, recorda-se, suscitou onda de consumo, que só não pressionou a inflação por causa da abertura das importações. Mesmo assim, houve uma onda de inadimplência e aumento nos déficits comerciais. Com tudo isto, os consórcios foram freados.
É fora de dúvida que o momento é adequado para esta nova reviravolta nos consórcios. Com três anos de real, os brasileiros já estão mais sóbrios em relação à moeda e à estabilidade. Na nova etapa que se inicia, é importante cuidar-se do estímulo à atividade produtiva como remédio simples e natural para a necessidade de emprego. As medidas relativas aos consórcios, que incluem novas modalidades para o setor imobiliário, aumentam prazos em outros setores e possibilitam até formação de grupos para pacotes turísticos, vão aquecer vários segmentos do mercado, com resultados que podem ser bastante positivos.
Naturalmente, não se descarta a necessidade de haver vigilância oficial sobre os consórcios. Já houve abusos sem conta em outras épocas, muitos brasileiros foram bastante prejudicados por empresas que faliram e os deixaram na mão. Isto é inaceitável. Obviamente, ao lado da ação governamental, não se deixa de lado também a preocupação individual. Afinal, o brasileiro também tem evoluído bastante na defesa de seus direitos. É de esperar que tenha cuidado ao ingressar na eventual onda que pode surgir com esta abertura. Com uma correta fiscalização das autoridades e o necessário cuidado dos consumidores, as novas medidas do CMN podem ter excelentes consequências.

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