Editorial
Referindo-se à criação de novos empregos nos últimos 12 meses e também ao crescimento do PIB no primeiro semestre, o ministro do Trabalho, Francisco Dornelles, afirmou acreditar que o País está vivendo um ano extremamente positivo, assinalando que a boa notícia é que o emprego cresceu não só nos grandes centros, mas também nas médias e pequenas cidades. No entendimento do ministro, o País vai crescer e superar todas as dificuldades, sendo que o quadro que descortina indica que já no próximo ano o presidente Fernando Henrique estará com o índice de popularidade alto, superando as dificuldades que enfrentou ao longo do começo de seu segundo mandato. Os dados efetivamente são positivos, confirmando, aliás, as previsões que vinham sendo feitas desde o final do ano passado e que indicavam que o Brasil poderia apresentar um desempenho positivo no campo econômico. Entretanto, ainda é cedo não apenas para uma observação eufórica em relação à redução nos níveis do desemprego mas, e talvez principalmente, sobre o eventual efeito positivo que isto possa ter sobre o prestígio do presidente Fernando Henrique Cardoso e seu Governo.
É fundamental insistir em que para que as boas perspectivas que se observa no quadro econômico persistam será necessário que haja uma efetiva ação governamental destinada a facilitar um aquecimento compatível com as necessidades da população. Faltam ainda decisões mais concretas no que diz respeito ao estímulo do investimento produtivo capaz de gerar mais empregos. Paralelamente, ainda continuam faltando medidas destinadas a reduzir o peso dos encargos que incidem sobre os salários e que não apenas desestimulam aumentos, mas também inibem iniciativas destinadas a aumentar o mercado de trabalho. Uma das resultantes desta falta de iniciativas no setor é a persistência e o crescimento do chamado mercado informal de trabalho, um modo para que o empregador fuja dos encargos e o desempregado tenha meios de conseguir uma vaga.
Esta reação do ministro do Trabalho que praticamente não tem sido citado ao longo de seu período no primeiro escalão do Governo , é típica da ação dos políticos que buscam se aproveitar de situações melhores. Importa, porém, observar que a causa principal desta melhoria que se observa em alguns indicadores econômicos não ocorre como resultado de algum tipo de ação mais concreta da autoridade. Pode-se repetir agora o que vem sendo dito há décadas: o Brasil progride apesar do Governo. Os bons resultados conquistados este ano, já antecipados, representam a luta firme de uma população que está vendo crescer a autoconfiança e insiste em uma postura mais consciente apesar da falta de medidas oficiais que poderiam, sem dúvida, ajudar na recuperação. O Brasil, afinal, é viável. Vale sempre lembrar a previsão de um futurólogo segundo quem o Brasil vai se tornar uma potência mundial, mesmo que não tenha governos capazes.
Possivelmente, na medida em que persistir a melhoria no quadro econômico o Governo Federal poderá se beneficiar um pouco, melhorando a performance diante do povo, conforme antecipa o titular do Trabalho. Mas esta é uma consequência adicional de um processo, até porque a população tem se mostrado mais consciente de seu papel e mais exigente sobre a ação governativa. O que poderia efetivamente garantir uma mudança no quadro atual sobre o que o povo pensa do Governo seria uma atitude mais concreta, no que tange a medidas de estímulo ao crescimento, ao lado de uma postura menos imperial diante dos escândalos que representam, hoje, o fator mais importante na deterioração da imagem da autoridade federal.





