Às vésperas de um novo milênio, há quem discuta sobre a necessidade ou importância de cerimônias como a que se realizou domingo em Hiroshima, relembrando os 55 anos do lançamento da primeira bomba atômica sobre uma cidade. Para a parcela que nem tinha nascido quando daquele episódio, não só as bombas atômicas (três dias depois da explosão de Hiroshima foi lançada outra, desta vez sobre Nagasaki), mas outros eventos igualmente marcantes da primeira metade do século 20, incluindo as duas Guerras Mundiais, parecem distantes e desvinculados da realidade. Aos que insistem na necessidade de se rememorar estas e outras tragédias que marcaram a vida da humanidade ao longo de todos estes séculos de história, as novas gerações podem responder com a situação atual de um mundo globalizado, no qual episódios como o genocídio dos judeus, os crimes de Stálin e as bombas atômicas parecem representar um passado sepultado. Mesmo porque, a própria Guerra Fria, herança da II Grande Guerra, terminou com o fim da União Soviética, a queda do Muro de Berlim e a reunificação da Alemanha. Naturalmente, ainda há conflitos, miséria e muito sofrimento por este mundo em que pelo menos um quarto da população padece com a fome e doenças dela decorrentes. Mas a idéia é a de que hoje a ameaça atômica é algo que não deve mais despertar temor dos terráqueos.
Rememorar, porém, eventos como o bombardeio atômico que atingiu as cidades de Hiroshima e Nagasaki, no Japão, não é algo vazio. Ao contrário, representa uma vital necessidade para que se mantenha em mente todo o horror que o homem pode cometer contra os semelhantes, apesar da evolução fantástica que se vislumbra para o novo milênio. O calendário não modifica a natureza do ser humano. Do mesmo modo, as inovações desta era de globalização, que alguns decantam com entusiasmo, não estão melhorando em muito a vida das populações mais carentes, o que evidencia que o desenvolvimento tecnológico não é acompanhado por um tão necessário crescimento moral.
Também por isto, e até porque os artefatos nucleares foram usados pelos ‘mocinhos’ da II Guerra, os Estados Unidos, líderes do mundo livre que lutavam contra as tiranias nazista e fascista, é que não se pode pretender deixar para trás aqueles eventos. Na época, enquanto os norte-americanos perseguiam a tecnologia para conseguir construir as bombas atômicas, sabia-se que também os nazistas estavam trabalhando nesse sentido. E é possível acreditar que se os asseclas de Hitler houvessem chegado primeiro à bomba atômica, a própria história do mundo seria diferente. Todavia, os nazistas estavam derrotados, o fascismo também. Restava apenas a luta contra o Japão, quase no fim. As armas atômicas não teriam sido necessárias, a não ser como um meio para abreviar uma guerra que estava no fim. As justificativas para sua utilização, hoje, parecem absurdas ou inadequadas.
Contudo, assim como os Estados Unidos decidiram usar as bombas, matando centenas de milhares de pessoas em cidades comuns, é possível que se repita, em outro momento, a mesma tentação ou de se usar artefatos similares ou de se adotar medidas diferentes de opressão, como as que estão marcando ainda a vida do homem neste fim de milênio. As lições que devem continuar a ser tiradas de Hiroshima e Nagasaki são as de respeito à vida, em qualquer circunstância. Tais ensinamentos não perdem a atualidade em momento nenhum da história.

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