EDITORIAL
Algumas emissoras de TV começaram a veicular um tipo de apelo patriótico (as aspas são intencionais): pedem que o povo doe dinheiro para ajudar o esforço olímpico brasileiro. Pede-se pouco, 5 ou 10 reais, com a garantia de que esta colaboração poderá garantir mais vitórias e medalhas ao Brasil nas Olimpíadas de Sydney. O esporte, sabe-se, mexe mesmo com o povo, produz uma interação que raramente se vê em outro tipo de atividade. A vitória obtida domingo pelo brasileiro Rubens Barrichelo, na Fórmula 1, é por si bem indicadora. O Brasil vibrou por inteiro com a conquista, assim como ficava feliz na época de Ayrton Senna e se prende à TV nos jogos da Seleção de futebol. A corrente pra frente, frase que indicava a união dos brasileiros nos anos 70, vibrando com a Seleção que ganhou a Copa do Mundo pela terceira vez, é uma realidade que hoje saiu da esfera do futebol para atingir outros esportes, como o automobilismo, o tênis, o vôlei, o basquete, o atletismo, a natação. No meio das dificuldades que o País enfrenta, o esporte, principalmente o triunfo, representa uma espécie de catarse, faz com que os problemas de todos os dias sejam ao menos deixados de lado por algumas horas. E os governantes sabem disto e exploram bastante esta situação, oferecendo apoio financeiro (através, por exemplo, da publicidade de empresas oficiais a equipes e atletas) e tirando proveito sempre que possível do sucesso de qualquer modalidade esportiva. Neste contexto, as Olimpíadas, ainda mais quando o governo federal enfrenta uma série de denúncias, a população continua a sofrer as dificuldades da recessão, faltam empregos e os salários estão espremidos, oferecem uma pausa importante. Os 15 dias das disputas poderão desviar um pouco a atenção dos brasileiros dos escândalos e abusos que vêm sendo denunciados a toda hora e em toda parte.
Este tipo de campanha poderia ser até interessante, na medida mesmo em que produziria uma interação ainda maior entre o povo e os atletas que nos representam, não fosse por um detalhe: o esporte, apesar de muitas reclamações, recebe uma imensidão de verbas, tanto para as Olimpíadas quanto para outros eventos. E, paralelamente, têm surgido sérias acusações sobre uso indevido e até abuso e desvio de recursos, sem que ocorra qualquer trabalho visando elucidar isto. Há anos o medalha de ouro brasileiro Aurélio Miguel vem denunciando desmandos da Confederação Brasileira de Judô, sem que se tenha feito qualquer coisa para esclarecer o assunto. Agora, um dos treinadores da seleção brasileira de judô, Antônio de Oliveira Costa, sua esposa, Maria Oliveira Costa, e seu filho, Afonso, dirigentes da Federação Mineira de Judô, foram acusados pelo Ministério Público de apropriação indébita, desvio de recursos da entidade, falsidade ideológica e formação de quadrilha. Estão desaparecidos, o que mostra que o ex-juiz Nicolau dos Santos Neto está fazendo escola. O presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Arthur Nuzman, afirma que só vai tomar alguma providência se houver provas das acusações. Enquanto isto, o fugitivo Antônio continua a ser membro da equipe olímpica brasileira.
O esporte tem uma lição importante: um atleta apanhado no exame antidopping é afastado de imediato, como ocorreu ontem com Elisângela Adriano, que iria competir no lançamento do disco nos Jogos Olímpicos. Mas para os dirigentes parece haver outra lei. Usam e abusam dos cargos, sem prestar contas a ninguém. Há uma infinidade de denúncias e escândalos envolvendo o esporte brasileiro, sem que ocorram punições ou esclarecimentos. Já é tempo desta onda de moralização que varre o País atingir o esporte. Enquanto persistirem as dúvidas, chega até a ser criminoso pedir que o pobre brasileiro doe parte de seus magros proventos para ajudar os esportes olímpicos.





