Editorial
Estudo do Departamento norte-americano de Agricultura, divulgado esta semana em Washington, revela que mais de 25% dos alimentos produzidos nos Estados Unidos são desperdiçados. Em 1995, perderam-se 43,2 milhões de toneladas, ou seja, 27% dos 160,2 milhões de toneladas dirigidas ao consumo da população. Frutas frescas, legumes, leite, cereais e doces representam dois terços destas perdas. Se uma parte destes alimentos desperdiçados fosse recuperada, poderíamos atender às necessidades dos que têm fome, declarou o secretário de Agricultura, Dan Glickman, acrescentando que pretende dar prioridade à recuperação dos produtos alimentícios.
Em média, cada pessoa consome nos Estados Unidos 1,35 quilo de comida por dia. Se apenas 5% desses 43,2 milhões de toneladas de perdas pudessem ser recuperados, 4 milhões de pessoas teriam condições de comer durante um dia. Se 5% destes produtos não fossem jogados no lixo, os EUA também poderiam economizar cerca de 50 milhões de dólares por ano em custos com o tratamento de dejetos.
Este é também o que se poderia chamar de um problema global. E diante destes números tão frios, é possível perceber a gravidade da questão. As toneladas de alimentos desperdiçados nos Estados Unidos como no Brasil ou em qualquer parte do mundo poderiam diminuir sensivelmente a fome, um desafio mundial. Afinal, segundo números mais ou menos confiáveis, um terço da população do mundo passa fome. Se o desperdício de alimentos de modo geral for equivalente ao que se observou nos Estados Unidos, tem-se que só com o aproveitamento do que se perde ponderável parcela dos 33% famintos poderia ser atendida.
É sabido que o jogo de números não resolve os problemas. Todavia, a realidade do desperdício, em todos os setores, nos países desenvolvidos como nos mais pobres - nosso caso -, constitui prática quase natural. Em relação às nações de dimensões maiores, como Brasil e EUA, até mesmo esta característica contribui para o desperdício. A imensidão dos espaços acaba por provocar reação de desligamento ante o desperdício geral. E, no entanto, o que se joga fora sem sequer pensar faz falta e representa, também, como revela o citado estudo, outro tipo de perda - os gastos com tratamento do lixo. Que, na verdade, nem lixo deveria ser considerado.
A constatação de tamanha perda, nos Estados Unidos, não caiu no vazio. O secretário Dan Glickman, após revelar este quadro lamentável de perdas, anunciou que nos dias 17 e 18 de setembro próximo acontecerá em Washington reunião nacional para discutir o tema, visando encontrar alternativas capazes de representar a recuperação de, pelo menos, parte destas perdas. Esta é, sem dúvida, a forma adequada para enfrentar problemas. Uma vez feita a quantificação deles, como revelado pela pesquisa, há que enfrentá-los com discernimento e objetividade.
Este é um dos casos em que, sem dúvida, o que é bom para os Estados Unidos também é bom para o Brasil, pois inegavelmente o desperdício de alimentos e de outros bens disponíveis no mundo constitui hoje verdadeiro atentado, um desrespeito à fome e à miséria de milhões. No Brasil, a quantificação do desperdício deve ser superior à observada nos Estados Unidos e começa na própria lavoura. As perdas observadas desde o plantio até a comercialização são imensas. Em verdade, apenas reduzindo as perdas já seria possível aumentar e em muito os valores da produção, com todos os efeitos positivos disto decorrentes, até mesmo a redução nos preços dos produtos.





