Em meio às justificadas comemorações pelo transcurso do terceiro aniversário do real, não podem ser descartados os alertas que se fazem, tanto aqui como no exterior, sobre os riscos que ainda ameaçam não só a moeda, mas, por extensão, a economia brasileira. É o caso, entre outros, da previsão feita em Montevidéu pelo ex-ministro da economia do Uruguai, Alejandro Vegh Villegas, que afirmou que a crise econômica no Brasil é ‘inevitável’ e advertiu que a atual conjuntura deixa antever perigo de dificuldades no Mercosul. Ao falar num seminário com a presença do ex-presidente uruguaio, Luis Alberto Lacalle, e dos também ex-ministros da economia Enrique Braga e Ignacio de Posadas, Vegh afirmou que a economia brasileira deve se ajustar para evitar uma crise de proporções que afete também os países vizinhos.
Vegh, que ocupou a pasta da Economia e Finanças entre 1973 e 1985 e foi representante do Uruguai no FMI durante os mandatos de Julio María Sanguinetti e Lacalle, criticou duramente o Brasil, que definiu como ‘‘um dos países mais dirigistas, protecionistas e fechados do mundo que, lamentavelmente, não dá sinais de querer mudar’’. Para o economista uruguaio, os sinais que podem ser percebidos sobre a situação brasileira indicam que o país atravessa um momento delicado e que todo o processo econômico está em perigo precisamente pela perceptível falta de vontade de alterar suas estruturas. Trata-se, como é fácil perceber, de denúncia que faz eco aos alertas que têm sido repetidos nos últimos tempos diante da aparente indisposição dos políticos em concluir as reformas, que são fundamentais para garantir a estabilização.
A preocupação do ex-ministro uruguaio está, naturalmente, mais ligada ao problema continental, especificamente ao Mercosul. De fato, se houver uma crise econômica no Brasil os vizinhos do continente vão sofrer as consequências, em maior ou menor escala. Entretanto, é fora de dúvida que a preocupação maior a respeito há de ser interna. Não há brasileiro hoje que sequer se permita imaginar reversão negativa no quadro atual. A população já se habituou com uma economia mais ou menos estável e deixou evidente que aprecia esta situação, muito mais agradável e firme que a da época anterior ao real, quando ninguém sabia o valor do dinheiro, do trabalho, de nada. E é precisamente porque a questão interessa direta e visceralmente à população que não se pode sequer cogitar de uma crise que jogue a moeda no mesmo limbo a que foram relegados os antigos cruzeiros e cruzados da nossa economia.
Esta linha de raciocínio leva fatalmente à mesma conclusão: é vital a preservação da moeda (e da economia) nos caminhos que foram traçados há três anos. Os excelentes resultados obtidos até aqui não podem ser postos fora. Faz-se urgente a conclusão do processo, através da aprovação e promulgação das reformas estruturais que irão garantir a solução do mais sério dos problemas que o Brasil enfrenta há muito tempo, o do tamanho do Estado. Os trabalhadores têm realizado sua parte, o empresariado igualmente evidencia profunda e importante mudança de mentalidade, de tal modo que hoje as questões trabalhistas são muito diversas das brigas de há alguns anos.
Atualmente, quem trabalha quer preservar o emprego, quem produz pretende manter os clientes e ambos sabem que estão do mesmo lado. Falta a contrapartida oficial, que demora demais. O Congresso deve trabalhar em convocação extra neste mês. Tem obrigações sérias de dar sequência e urgência ao seu trabalho para assegurar que o país não terá a tão temida crise em sua economia.

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