Parceria importante

Durante a cerimônia de assinatura de convênio entre o Grupo Gerdau e o Conselho do programa Comunidade Solidária para a capacitação de jovens em Porto Alegre, o presidente Fernando Henrique Cardoso voltou a defender a parceria do governo e da sociedade para a solução dos problemas do País. ‘‘Muita tinta foi derramada sobre o programa Comunidade Solidária e até imaginavam que fossem existir recursos do orçamento e que o programa seria instrumento de ação política’’, recordou o presidente. ‘‘As pessoas custam a sair do passado. Então repetem o que não é verdadeiro para dar a impressão de que nós continuamos prolongando uma situação que hoje é inaceitável’’, completou, enfatizando que o programa não tem recursos do Orçamento.
Não só o apelo do presidente está correto, como também a filosofia implícita nele é plenamente válida. O que falta é um melhor alinhamento, um modo mais objetivo para que ocorra esta interação que o governo quer com a sociedade. O único caminho para a solução dos problemas nacionais - e aí não se trata somente das questões sociais, objeto do programa Comunidade Solidária - é mesmo o da parceria entre governo e sociedade. Ocorre que, lamentavelmente, havia uma distância enorme entre as duas partes, que formam ou deveriam formar um todo, para todos navegarem na mesma direção e remarem para o mesmo lado.
Muitas vezes, nos últimos anos, ocorreu nesta relação governo-sociedade uma verdadeira batalha, como se as duas partes fossem conflitantes. O governo transformou-se numa entidade quase insensível, em face das necessidades e dificuldades da sociedade, criando encargos, aumentando impostos, provocando entraves. A situação atingiu um nível tão grave que se viu, há pouco tempo, uma união entre trabalhadores e patrões visando driblar obstáculos que persistem na legislação trabalhista, para tentar criar condições mais adequadas à geração de empregos, coisa que qualquer governo deveria apoiar e estimular.
Infelizmente, não é somente na área trabalhista que há antagonismo entre governo e sociedade. Várias vezes a sociedade protestou e indignou-se com o alheamento do governo diante das necessidades da população. O rótulo de ‘ilha da fantasia’ caiu muito bem (ou muito mal) a Brasília durante muitos anos. Em certa época, a impressão era a de que o governo vivia em outro Brasil, totalmente dissociado do Brasil real, que trabalha, luta e sustenta o aparato estatal.
Para que aconteça a parceria da sociedade com o governo é imprescindível que o presidente apresente alternativas e sugestões concretas que, de fato, indiquem o legítimo interesse oficial de partilhar dos esforços comuns para resolver problemas. A História recente de descaso oficial exige isto. Este seria um passo da maior importância, pois a descrença da sociedade ainda é grande e ela continua presa às malhas de uma burocracia complexa, pressionada por uma estrutura tributária perversa e sentindo-se lesada por ter de manter uma máquina estatal arcaica e perdulária.
O Estado brasileiro gasta muito e mal, não se policia, coloca-se muitas vezes acima da sociedade. Não é responsabilidade apenas do presidente, que tem lutado para obter as reformas do Congresso. Não é também culpa exclusiva da União. Estados e municípios igualmente são perdulários e ineficientes. Resolver isto não é fácil. Mas é fundamental. E para isso basta começar. A redução significativa do déficit público e o saneamento completo das empresas estatais - que não dependem do Congresso - poderiam ser o primeiro e auspicioso passo.

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