Editorial
Quando o Muro de Berlim caiu, sem que o mundo mergulhasse na temida terceira guerra mundial, a surpresa foi enorme. Desde que, com o final da II Guerra, a Alemanha foi dividida e, principalmente, depois que os comunistas construíram o Muro dividindo a antiga Capital do III Reich, aquilo surgiu como o símbolo vivo da divisão do mundo, um marco claro e definitivo da impossibilidade de haver paz no planeta. Mas o Muro caiu, a Alemanha foi reunificada, os regimes comunistas da Europa se esboroaram, a União Soviética acabou. Repentinamente, a humanidade se viu livre da chamada guerra fria, iniciando uma nova e até inesperada era. Só então foi possível dizer que a guerra mundial terminou.
Persistiam, porém, outros sinais de eras de dominação que marcaram a História do mundo. Um destes sinais era Hong Kong, território chinês mantido como colônia britânica há 156 anos. Um dos últimos remanescentes do Império estabelecido pelos britânicos e que, em determinada época, chegou a cobrir praticamente todos os continentes do mundo. A Grã-Bretanha começou a perder sua força com o final da II Guerra. A fase de libertação do colonialismo atingiu em cheio a Ilha. Mas se era possível entender a luta de libertação dos povos colonizados, notadamente na África, parecia absurdo até pensar em alguma coisa semelhante em Hong Kong. Não se tratava de um país, mas de uma possessão. E, embora existisse um certo temor sobre a possibilidade de algum tipo de ação armada da China para retomar o território, isto figurava no quadro das quase impossibilidades históricas.
Mais impossível, ainda, parecia a simples devolução do território pelos britânicos aos chineses, sem guerra, sem sangue, sem convulsões. E é exatamente isto o que está acontecendo hoje. No final do dia, a bandeira britânica será arriada e, no primeiro minuto de amanhã, Hong Kong verá tremular a bandeira da China, recuperando assim o território dominado há mais de 150 anos. Tão incrível quanto a queda do Muro de Berlim, a devolução de Hong Kong aos chineses ainda parece mais dramática. Dá a impressão de uma derrota do antigo gigante colonial, que perde assim um de seus mais fortes bastiões econômicos.
Mas é, antes de tudo, apenas o corolário natural de uma alteração que se processa no mundo em termos de convivência. Desde o fim da II Guerra, o colonialismo estava com os dias contados. Naturalmente, isto poderia ter tido uma consequência diferente, não houvesse ocorrido a grande transformação mundial produzida pelo crescimento do poder destruidor do homem. Aos poucos, os seres humanos perceberam que a escalada nuclear, ao invés de garantir mais segurança, apenas colocava o planeta cada vez mais sob a ameaça da destruição. E não haveria, caso explodisse a tão temida hecatombe nuclear, esperança de sobrevivência. Logo, por mais complicada que fosse a idéia, repentinamente a realidade da possível destruição global acabou funcionando para levar a uma nova mentalidade.
Curiosamente, é possível perceber que a globalização da economia tem um papel nesta mudança. Ao invés de tentar dominar o mundo pelas armas - idéia que foi permanente quase que ao longo da História humana - percebeu-se que havia a possibilidade de outra dominação. Está aí o Japão, fragorosamente derrotado na II Guerra, convertido em potência econômica mundial. E também a Alemanha. Sem armas, sem bombas atômicas. Quem tinha poder nuclear, como a União Soviética, se esboroou. Hong Kong, centro de comércio por excelência, é mais um passo. A nova guerra mundial se fará em termos econômicos. As perdas serão, pelo menos, mais aceitáveis.





