Apesar de todas as advertências e da percepção, cada vez mais nítida, sobre os riscos para a vida na Terra em consequência dos crimes ambientais cometidos por boa parte da humanidade - em especial pelos países mais ricos e, não se sabe se corretamente chamados, desenvolvidos - a Segunda Cúpula da Terra realizada em Nova York durante a semana terminou em fracasso. Convocada pela ONU - o que lhe confere um status oficial -, a conferência tinha como objetivo fazer uma análise das ações adotadas após a Eco-92, a Primeira Cúpula da Terra, realizada há cinco anos no Rio de Janeiro. Ao final, e principalmente diante da posição radical dos Estados Unidos - a maior potência e também o mais destacado agente destruidor do meio ambiente no mundo -, sequer uma nota oficial pôde ser aprovada.
Os Estados Unidos se negaram a aceitar qualquer tipo de restrição ou a assumir compromissos para diminuir sua ação devastadora sobre o clima. Os participantes do encontro, notadamente os ambientalistas, saíram com a nítida sensação de que nem mesmo as previsões mais apavorantes conseguiram despertar a consciência global sobre a situação.
E não faltaram alertas. Dirigentes de países insulares fizeram os mais veementes apelos contra o efeito estufa. Já perceberam que se continuar a ação predatória sobre o clima, serão eles os primeiros a sofrer com o aquecimento do planeta, que provoca o degelo das calotas polares, a elevação no nível dos oceanos e a consequente ameaça de alagamentos fatais. Lamentavelmente, embora este perigo ameace também as costas de algumas nações continentais, com a previsão de tragédias capazes de riscar muitas cidades do mapa, o que se viu na Cúpula foi uma postura de omissão e descaso. Os líderes das grandes nações simplesmente preferiram deixar tudo como está, sem declarar sequer a intenção de reduzir efeitos predatórios de suas atividades econômicas sobre o meio ambiente e o clima.
Outro grande desafio apresentado na Conferência, sobre como evitar o rápido esgotamento das reservas de água potável no mundo, foi igualmente ignorado. Os que insistiam em chamar a atenção para a situação, que pode ter consequências catastróficas em poucos anos, foram vistos como alarmistas tolos que, sem ter o que fazer, se preocupam demais com a sobrevivência do homem no planeta. Os alertas, de um lado, e o desinteresse, do outro, produziram um diálogo de surdos. O futuro dirá quem tinha razão, mas então poderá ser tarde demais para evitar o sofrimento das populações atingidas e até os conflitos armados que surgirão.
É preciso mudar determinados hábitos que até pouco tempo atrás não afetavam a vida natural. E não só hábitos de comportamento, mas também a maneira de ver e pensar as coisas da vida e do mundo. Pois hoje, a humanidade ocupou tanto o planeta e desenvolveu tantas tecnologias que seus atos interferem drasticamente no mundo natural. Coisas que sempre foram triviais e necessárias, como plantações de mandioca nos arredores a leste do Pantanal Mato-Grossense, por exemplo, estão fazendo rios inteiros desaparecer em consequência do assoreamento de seus leitos.
O mais grave é que a insensibilidade torna cada vez mais difícil pensar em salvar a Terra do seu maior predador. Alguns estudiosos chegam a antecipar um quadro dantesco, afirmando que a destruição atual é tão grande que nada mais poderá evitar o caos. Não se pode, porém, aceitar isto passivamente. O homem já mostrou que é capaz tanto de destruir quanto de criar. O que se precisa é que a consciência do problema mobilize todas as sociedades, as ricas e as pobres. Infelizmente, não foi o que se viu na Cúpula de Nova York. E isto deve realmente preocupar a parte mais lúcida da humanidade para se corrigir em 2002.

mockup