EDITORIAL
O Brasil progride à noite, quando os políticos estão dormindo. Esta frase, cunhada há muito tempo, pretende indicar o fato de que os políticos, notadamente os governos, muitas vezes atrapalham mais do que ajudam. A discussão atual, que envolve inclusive o ajuste fiscal, sobre o tamanho do Estado e a necessidade de se reduzir o chamado custo Brasil é quase semelhante na medida em que indica que existe uma presença muito grande do governo nas atividades em geral, provocando mais prejuízos que benefícios. Sobre esta influência ainda é interessante rememorar que quando do lançamento do Plano Cruzado, pelo então presidente José Sarney, o seu ministro da Fazenda disse que um dos maiores problemas do programa era o fato de que o governo controlava apenas 85% da economia, dando a entender que os 15% restantes é que levaram o projeto ao fracasso.
O papel do governo, no Brasil, tem extrapolado os limites, influindo em praticamente todos os aspectos da vida. De tal modo esta realidade é palpável que, entre outras coisas, quando se discutem questões trabalhistas, percebe-se que existe uma proximidade maior entre patrões e empregados, com estes muitas vezes se unindo para tentar reduzir a influência do governo, que com seus excessos, notadamente fiscais, dificulta o investimento produtivo e a própria criação de empregos.
Estas observações não são feitas para defender algum tipo de sociedade nova, anárquica, sem governo. É inegável que a sociedade organizada reclama um tipo de administração. O que se questiona, porém, é o tipo de atuação dos governos que ocupam espaços que não lhe cabem, que querem fazer o que não lhes é defeso. A necessidade de mudanças nesta situação pode ser percebida mais facilmente diante de certas situações, como esta que está sendo vivida pelo município de Londrina por causa da decisão da Justiça de afastar do cargo por 120 dias o prefeito Antonio Belinati. Quando se divulgou a decisão da Justiça, o prefeito desapareceu, e só acabou encontrado ontem, em Curitiba. Normalmente, o cargo deveria ser ocupado pelo vice, que não existe desde que o deputado Alex Canziani renunciou ao cargo, como resultado de sua eleição para o Congresso. Na linha de sucessão, assumiria o presidente da Câmara, que está doente. E o vice dele continua indefinido.
É certo que um substituto só pode assumir depois que o prefeito afastado for intimado. De qualquer modo, prevalece a incerteza porque além de tudo há o temor da inelegibilidade para o vereador que venha a assumir, por 120 dias ou até o final do mandato, caso se concretize o afastamento total do prefeito. Há até a possibilidade de uma ação no sentido de levar algum vereador a assumir, uma vez que se trata, também, de função do Legislativo a eventual substituição do prefeito diante da vacância do cargo. Toda esta situação chega a ser absurda por dar a impressão de que não há ninguém, neste momento, interessado em ocupar o principal cargo político do município.
Todavia, em meio a tudo isto, ressalta-se o fato de que Londrina ficou sem prefeito e a cidade continua a trabalhar, tranquilamente. O comércio, a indústria, os bancos, os serviços, tudo está funcionando, até mesmo a prefeitura na parte burocrática. Evidentemente, há decisões que cabem ao chefe do Executivo e que reclamam alguém na chefia da prefeitura. Mas é possível perceber que municípios, estados e até o País podem viver sem que haja alguém de plantão para resolver tudo a toda hora. Ao que tudo indica, um governo que interfira menos será bom para a própria vida dos brasileiros.





