EDITORIAL
A iniciativa da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal que anunciou o propósito de investigar as circunstâncias das mortes dos presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart e do governador carioca Carlos Lacerda pode dar a impressão de ser um movimento revanchista, até um pouco deslocado no tempo. Aqueles acontecimentos fazem parte do passado e são muitos os que consideram este tipo de idéia algo pernicioso, por trazer de volta fatos que podem não ser relevantes. Há também a preocupação, que foi inclusive manifestada pelo falecido presidente João Batista Figueiredo, quando encaminhava a abertura e incitava a que não se usassem pedras para lançar sobre o passado, sugerindo que elas fossem utilizadas para construir o futuro.
Todavia, importa perceber que não se trata pura e simplesmente de um tipo de ação que vise retaliação. Na verdade, o projeto representa um passo importante no resgate efetivo da História, o que constitui fator dos mais importantes dentro mesmo daquela antiga (e correta) idéia segundo a qual as nações que não aprendem com os erros do passado correm o risco de repeti-los no futuro. Há adicionalmente outro fator: as mortes de JK, de Jango e também a de Carlos Lacerda, apresentadas até agora como fatos naturais incluindo aí o acidente que vitimou Juscelino, apenas um a mais entre tantos os que ocorreram na Via Dutra podem fazer parte daquele imenso engodo que envolve a própria História oficial do Brasil. Esse engodo começou com a informação de que a descoberta do País ocorreu por acaso e continuou com uma série de manipulações em que se percebe, sempre, a ausência do povo, que jamais figura como agente de suas próprias reivindicações.
Saber se houve algo mais nas mortes de JK e de Jango, assim como na de Lacerda, constitui um resgate importante. Apesar da memória curta do brasileiro, a figura de Juscelino Kubistchek ainda é lembrada. Ele, Jango e Lacerda formaram uma inesperada aliança, durante o tempo da ditadura. Era a chamada frente ampla que visava, precisamente, enfrentar o totalitarismo. A revelação de alguns dados sobre a malfadada Operação Condor, que uniu as ditaduras militares do Cone Sul, na década de 70, serve para, pelo menos, justificar este tipo de investigação. Recentemente, elementos sobre a operação foram usados para fortalecer as denúncias contra o ex-ditador chileno Augusto Pinochet. A constatação de que opositores das ditaduras em outros países, Brasil incluído, poderiam também ter sido alvo da Condor traz nova luz e merece investigação.
Trata-se, ademais, de mostrar à atual geração o lado não revelado das ditaduras. Em momentos difíceis, como os que o Brasil enfrenta agora, não são poucos os que falam com nostalgia dos tempos antigos, lembrando a ainda recente ditadura militar de 64 a 85. É importante desmascarar o mito, mostrar a face real do totalitarismo, deixar evidente suas atitudes criminosas. Se, como se suspeita, além de todos os crimes cometidos contra a sociedade também se pode somar a morte de JK, Jango e Lacerda, tem-se aí uma situação altamente perigosa.
Investigar tais fatos representa, inclusive, uma responsabilidade para com a própria História e com a cidadania. A possibilidade de que a morte de JK, Jango e Lacerda faça parte de um complô, tenha sido planejada por agentes dispostos a qualquer coisa para calar vozes que teimavam em se levantar contra a tirania precisa ser examinada em profundidade. Não se vai ressuscitar os mortos, mas será possível mostrar aos vivos a ameaça da tirania e a importância da liberdade para a vida de todos e de cada um.





