O Brasil de todos
Às vésperas da celebração pelo 5º centenário da chegada das naus portuguesas à terra que agora se chama Brasil, uma onda de contestações vai se avolumando, convertendo o que poderia (e deveria) ser uma festa de congraçamento em um marco de queixas, as mais variadas. Primeiro foram os índios, descendentes dos habitantes originais da terra, rememorando a tragédia vivenciada desde a chegada dos colonizadores até agora. No rastro deste protesto, surge o MST promovendo invasões e manifestações. Para completar, representantes de entidades que congregam negros também indicam que nada têm a festejar, lembrando que seus ascendentes vieram ao Brasil à força, trazidos como escravos e que continuam hoje, 500 anos depois, marginalizados e vítimas do preconceito.
Pode-se considerar este tipo de situação uma consequência natural dos novos e curiosos modos de encarar as situações, uma revisão que em certo sentido pode até ser entendida, mas que deveria ser permeada também de um pouco mais de bom senso. Não apenas os índios ou os negros, mas muitos outros membros de minorias têm motivos para questionamentos e queixas. O Brasil, aliás, conta com uma imensa multidão de marginalizados, entre os quais uma grande parcela de brancos, que igualmente poderiam se manifestar insistindo em que não há nada a festejar nestes 500 anos. Na verdade, o mesmo podem dizer professores, no dia 15 de outubro, funcionários públicos, a 28 do mesmo mês, e tantos outros profissionais que são apenas lembrados em uma data e que têm sólidos motivos para reclamar da falta de reconhecimento ao seu trabalho. O que não se pode esquecer, porém, é que este tipo de comemoração que evoca um ou outro profissional, assim como o próprio Dia do Trabalho, tem também o objetivo de, na pior das hipóteses, proporcionar condições para análise e até resgate de erros cometidos.
A continuar este tipo de reação, vai-se chegar ao dia 22 de abril com a idéia de que só os descendentes dos portugueses têm o que festejar. Como, porém, certamente, entre eles há muitos vivendo em situação difícil, será possível ouvir ali também contestações. Mas a questão não é esta. A própria revisão que parece se pretender fazer sobre a História não é incompatível com a celebração em si. Afinal, existe uma realidade: no dia 22 de abril de 1500 chegaram ao local agora chamado Porto Seguro as caravelas da frota comandada por Pedro Álvares Cabral, que marcaram o início da existência de um país que veio a receber o nome de Brasil. O sentido da viagem, a colonização, os abusos contra os índios, os escravos que foram trazidos à força, tudo isto faz parte da História e merece mais do que uma revisão, uma mudança mesmo. Mas renegar o começo não resolve. Naquele dia, começou uma História. Hoje, passados 500 anos, todos quantos vivem neste país continente chamado Brasil têm algo a ver com isto. A realidade atual é consequente de tudo o que ocorreu a partir daquele momento.
E é uma realidade que envolve a todos, índios, negros, brancos, amarelos (que vieram depois). Assim, rememorar esta data é natural. Discutir os erros, reclamar direitos, postular mudanças é justo. A única coisa deslocada nisto é precisamente a negação do fato, inclusive porque isto seria como tentar desconhecer a realidade. A festa de sábado é de todos os brasileiros, mais até do que dos portugueses, que celebram apenas seus antepassados. O Brasil que completa 500 anos é resultado do trabalho, da luta e também do sofrimento dos que foram e têm sido marginalizados e explorados. E todos precisam se unir, celebrar e iniciar uma nova etapa para que haja menos injustiça e exploração no futuro.

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