Uma nova etapa
Em um gesto de profunda coragem (e, naturalmente, de enorme fé) o Papa João Paulo II fez um pedido de perdão pelos crimes cometidos pela Igreja ao longo dos tempos. Foi um ato destinado a marcar de modo indelével a passagem do Jubileu de 2 mil anos do nascimento de Jesus Cristo e que teve também como elemento adicional a proclamada intenção de uma mudança, que se consubstancia no esforço que a Igreja tem feito, notadamente nestes últimos tempos, por uma aproximação com as demais crenças, cristãs e não-cristãs. É necessária, sem dúvida, uma imensa força para expressar, do modo como João Paulo II o fez, o reconhecimento pelos erros que é a base do apelo relativo ao perdão, evidenciando ademais a coragem de assumir situações que, afinal, eram comuns à época. Com efeito, não só a Igreja Católica mas muitas outras religiões e também instituições diferentes, inclusive governos, agiram de modo contrário ao respeito à dignidade humana através dos tempos. Poucos tiveram a disposição de, como ocorreu com o Papa, assumir o passado e tentar, com uma atitude que é, sem dúvida, cristã, iniciar uma fase nova.
Entre tantos crimes cometidos ao longo do tempo pelos homens contra os semelhantes, pode-se colocar também, inegavelmente, o genocídio cometido pelos colonizadores contra os povos da terra, em toda a América, além de incontáveis abusos contra os povos da África e de parte da Ásia. São fatos que fazem parte da História, que marcaram de modo sangrento e trágico a conquista das chamadas terras novas do continente ‘descoberto’ pelos europeus. Nesta semana, quando se celebram os 500 anos da chegada dos portugueses ao Brasil, a reação dos descendentes dos moradores originais da terra é natural, principalmente porque até agora não houve a real atitude de remissão dos colonizadores pelo que fizeram com os índios do Brasil.
Importa igualmente lembrar que a História da Humanidade é quase que um registro contínuo de guerras, crimes e abusos. O que se destaca é que raramente há um reconhecimento, um pedido de perdão ou uma atitude de resgate, como a dos governantes da Alemanha que tem, nos últimos 50 anos, buscado por todos os meios se redimir dos crimes cometidos pelos nazistas. De modo geral, tenta-se deixar o passado de lado, o que é um modo inadequado principalmente por não haver, quase que generalizadamente, o propósito de reconhecer as faltas e corrigi-las.
No caso brasileiro, porém, é imperioso repetir, o principal sentido da comemoração dos 500 anos não é o de celebrar o começo de uma etapa de colonização, exploração e genocídio, mas o de rememorar um momento e destacar o presente, com o objetivo maior de perceber os acertos, reconhecer os erros e, aprendendo com eles, preparar um futuro melhor e mais justo. Os crimes cometidos ao longo dos séculos, que atingiram não apenas os índios mas também os africanos que foram trazidos à força como escravos e a outros desvalidos não devem ser esquecidos. Entretanto, neste momento, devem ser reconhecidos e vistos como parte de uma realidade que se tenta corrigir. E o que deve resultar desta celebração deve ser precisamente, junto com o reconhecimento dos crimes, a intenção de se realizar, a partir de agora, uma nova etapa.
O Brasil tem realizado, nestes 500 anos, um processo de integração ímpar no mundo. Há que reconhecer que os descendentes dos nativos da terra, em 1500, ainda não chegaram a participar deste processo, enfrentando condições adversas, sendo explorados e humilhados e marginalizados. O que se deve fazer, sem dúvida, é iniciar um grande esforço para que os 500 anos marquem a efetiva integração deles ao Brasil pujante que se projeta para o futuro.

mockup