Editorial
Recuperar a confiança
Estudo elaborado sobre a economia brasileira pós-desvalorização do real, assinado pelo titular da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Edward Amadeo, e seu adjunto, Fernando Montero, indica que a retomada do crescimento este ano terá de ser movida com base em confiança e crédito, reforçando que não haverá uma recuperação espontânea. De acordo com a análise, essa perspectiva de retomada vem norteando o esforço do Banco Central em estimular a queda das margens financeiras, o aumento da disponibilidade de recursos e a redução dos juros. O documento acrescenta que o clima de maior confiança e tranquilidade também aumenta a previsibilidade e reduz os riscos, propiciando maiores investimentos e expansão do crédito.
De acordo com o estudo, as incertezas inflacionárias este ano continuam concentradas do lado da oferta, o mesmo que ocorreu ao longo de 1999. O trabalho destaca que o ano passado foi marcado por três choques de oferta sobre os preços. O primeiro ocorreu logo após a mudança do regime cambial, em janeiro, com os índices atingindo o pico em fevereiro. O segundo momento de pressão ocorreu nos meses de junho e julho, com o reajuste da maioria das tarifas públicas e dos combustíveis. O terceiro associou-se aos efeitos da entressafra agropecuária e da elevação do álcool combustível, no último trimestre do ano. Para este ano, existe um novo cronograma de reajuste de vários preços administrados. Combustíveis também são outra preocupação do governo brasileiro. Em relação aos choques ocorridos no ano passado, somente a agricultura não preocupa o governo este ano.
O fundamental neste estudo reside precisamente nos itens considerados fundamentais pelos seus signatários, notadamente a questão da confiança. Este foi, na verdade, o ponto crucial do próprio processo de mudança na economia, a partir do lançamento do plano de estabilização pelo Governo Itamar Franco. Em realidade, a população responde sempre bem e com confiança a iniciativas oficiais, o que se notou inclusive com o Plano Cruzado, lançado pelo Governo Sarney. O povo confiou e com isto garantiu boa parte do sucesso inicial do programa , mas acabou ludibriado. Igualmente, o próprio programa absurdo lançado pelo Governo Collor, com o confisco até da poupança, mereceu a confiança inicial da população. Todavia, outra vez, o fracasso do plano acabou levando o país a uma situação quase insustentável.
Quando lançou o seu plano de estabilização, o Governo Itamar Franco obteve a mesma confiança. E como aquele programa era, efetivamente, muito bem-feito, com uma engenharia adequada, tendo tido um acompanhamento bastante correto, a confiança só cresceu. Como fruto desta confiança, aconteceu a eleição do sr. Fernando Henrique Cardoso, considerado o mentor do plano, à presidência da República logo no primeiro turno, com maioria absoluta. E é certo que este sentimento continuou, apesar de alguns sinais inquietantes, pelos quatro anos subsequentes, o que garantiu a reeleição de FHC.
Acontece, porém, que no começo do segundo mandato houve a desvalorização do real, com todas as suas consequências. Uma delas, a perda da confiança, sem dúvida a mais séria. Restaurar este quadro, uma necessidade para que se retome o crescimento, conforme o entendimento dos responsáveis pela Política Econômica do Ministério da Fazenda, é tarefa muito complicada, que vai depender bastante do próprio governo. A falta de medidas efetivas capazes de recuperar esta confiança compromete o futuro. E o que se exige é precisamente o despertar da autoridade para sua responsabilidade diante deste desafio.





