O Brasil de todos nós
A festa dos 500 anos da descoberta do Brasil, que transcorre no dia 22, é (ou deveria ser) uma ocasião importante não apenas para a celebração de uma data bonita, mas a oportunidade de se realizar uma ampla reflexão nacional acompanhada de uma tomada de propósitos diante de tudo o que se passou e o que foi feito ao longo destes cinco séculos. Em alguns casos, nota-se este propósito e também há um esforço consciente no sentido de dar mais sentido à comemoração através do estabelecimento de programas visando mudar a realidade. Ocorre, porém, como pode ser considerado natural, que tem havido também distorções e equívocos, um dos quais bastante sério e que envolve os descendentes dos habitantes da terra ao tempo da chegada de Cabral. Muitos incidentes já foram registrados, alguns envolvendo violência contra índios que querem, a seu modo, marcar a data. Ao mesmo tempo, também há lideranças indígenas que buscam minimizar ou mesmo desfazer da comemoração, insistindo em que a festa não é deles.
Há aí um engano que precisa ser reparado. A comemoração dos 500 anos da descoberta não é apenas a festa dos descobridores, embora, sem dúvida, seja válida a homenagem aos portugueses pela coragem evidenciada ao atravessar o oceano e atingir terras novas, numa época eivada de superstições e medos. Sem dúvida, houve enormes interesses a mover o governo português e os navegadores, mas a coragem de afrontar o desconhecido até chegar à nova terra não pode ser diminuída em sua importância. Do mesmo modo, não se pode esquecer o que foi feito em relação aos habitantes originais das terras, assim como há que recordar os abusos cometidos contra os africanos, trazidos como escravos, e a opressão contra os mais pobres, que aconteceu em toda parte.
Entretanto, e com tudo isto, o que sobreleva, o que se deve ressaltar é o que se percebe hoje, 500 anos depois, ou seja: a realidade de um povo chamado brasileiro que se forjou através dos séculos por meio de uma integração como não se viu em outros pontos do planeta. Inegável a exploração, o abuso, os crimes cometidos contra os índios e também contra os negros, principalmente. Entretanto, mais importante do que confrontar ou tentar diminuir a comemoração é perceber o que se conseguiu fazer, apesar de tudo, é refletir sobre o Brasil de hoje, que enfrentou tantas dificuldades e que buscou superá-las até chegar a este momento em uma situação potencialmente positiva. Há que se perceber igualmente que o resultado que se tem quando o Brasil marca os 500 anos da chegada dos descobridores é impressionante e que existem hoje bases muito sólidas para garantir que os próximos séculos venham a ser muito mais produtivos em termos humanos.
O Brasil de hoje não é o resultado da descoberta ou da exploração colonial. É um país que superou obstáculos e que continua a vencer desafios, como resultado principalmente do trabalho comum de seu povo. São pessoas que vieram de todos os quadrantes do mundo e que se uniram e se integraram, construindo uma nova civilização, que inclui praticamente todas as raças e todos os povos. Que houve e ainda há injustiças sociais e raciais, que principalmente os descendentes dos nativos que se encontravam aqui à chegada de Cabral foram espoliados e massacrados, é inegável e não se pode esquecer.
Mas há que, acima de tudo, perceber que a festa que se celebra é a de todo um povo, o brasileiro, que inclui aquela criança que nasceu ontem, filha de um imigrante recém-chegado, e os descendente dos pataxós que viram as caravelas de Cabral naquele 1500. Todos formando uma nação e tentando forjar uma identidade unida para a festa de um país só, o Brasil de todos nós.

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