Mesmo em uma era tão violenta como esta que o mundo vive, as cenas vistas diante do Palácio do Governo do Estado de Minas, terça-feira, foram chocantes. Acompanhar o confronto entre soldados da Polícia Militar, uns contra os outros, é efetivamente assustador. Por mais que se conheça o nível dos abusos cometidos pela PM em praticamente todos os Estados - e nos últimos tempos isto tem sido lamentavelmente muito comum -, o que se viu ali foi ainda pior, já que as pessoas responsáveis pela manutenção da ordem é que se defrontaram com seus companheiros de farda, criando-se situação absolutamente condenável.
Sabe-se perfeitamente que as questões da segurança têm sido muito mal administradas pelas autoridades em praticamente todo o País. As polícias, tanto a civil quanto a militar, são pessimamente aparelhadas, falta um preparo mais adequado, a remuneração que se dá aos profissionais chamados a cuidar da vida, da propriedade, da segurança de todos os cidadãos é verdadeiramente inaceitável para qualquer padrão de dignidade humana. Tais realidades são plenamente conhecidas, do mesmo modo como se sabe da corrupção, da violência, dos abusos de muitos daqueles que respondem pelos organismos de segurança.
Em muitos Estados, a alegação para esta situação é a da falta de recursos, o que é apenas parte da verdade. O que existe mesmo é a ausência efetiva de vontade política dos governos para atender a uma das suas principais atribuições. Pois aí está sem dúvida uma questão raramente abordada: incumbe aos governos de Estado garantir a segurança pública. Há muitas coisas que os Estados podem ou não fazer. Mas em relação à segurança, esta é uma tarefa exclusiva, definida e clara. Infelizmente, porém, isto não é suficientemente levado a sério. Daí as desculpas sobre falta de recursos, os valores salariais absurdamente incompatíveis com o que se exige de um policial, o verdadeiro desrespeito para com a segurança dos cidadãos, que no fim acabam sendo as principais vítimas desta situação.
Nada disto justifica, porém, o que se viu diante do Palácio do Governo de Minas, como também nenhuma destas realidades explica a corrupção policial, o abuso do poder. O que é preciso, sem dúvida, é que se mude profundamente toda esta situação. E isso começa com a vontade dos governos de Estado em realizar a tarefa que constitucionalmente lhes cabe. É preciso que haja recursos, que a seleção e preparação dos policiais ocorra em níveis elevados, que os responsáveis pela segurança da população recebam instruções e equipamentos que possibilitem a realização de seu trabalho. É verdadeiramente absurdo, por exemplo, perceber que os marginais, em qualquer parte do país, possuem armas muito mais poderosas que as entregues aos policiais. Isto sem contar a falta de viaturas, o despreparo, todo o quadro que é mais que conhecido da população.
É fundamental perceber que o conflito em Belo Horizonte, por mais chocante que seja, reflete uma realidade nacional. Felizmente, os policiais militares não fizeram em outros Estados o que se viu em Minas. Todavia, a realidade da situação dos membros das PMs, assim como dos elementos das Polícias Civis, é similar. Pior é que uma das mais sérias consequências disto é a insegurança que se vive em praticamente todo o País, é o medo, são as perdas de vidas inocentes, é o caos que acontece quando não há segurança e ordem. Modificar esta realidade é um imperativo para os governos de Estado, que precisam, se necessário for, mudar suas prioridades. O que não pode é persistir esta insegurança que atinge o País.

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