Drogas, a busca de saídas
Em meio à avalanche de denúncias sobre a corrupção nos meios policiais, surgem algumas vozes defendendo uma sugestão que provoca, no primeiro momento, até certo pasmo: aumenta o número dos que propõem a legalização das drogas como meio para acabar com o tráfico e, por extensão, com a corrupção que gera. Vão além, ponderando que esta mudança (uma verdadeira revolução) teria também como consequência uma redução substancial na violência que é igualmente produzida pelo narcotráfico. A idéia de legalizar a produção e o consumo de algumas drogas não é nova. Em alguns países, defende-se inclusive a permissão do uso de maconha para fins medicinais. A idéia, porém, de liberar todas as drogas, mesmo aquelas consideradas ‘pesadas’, pela dependência que provocam e pelos danos que causam aos usuários, tem crescido entre os que percebem a cada vez maior força do tráfico mundial, que movimenta atualmente quantias astronômicas e que, também por isto, tem uma força corruptora quase impossível de ser enfrentada.
Trata-se, inegavelmente, de questão muito complexa, até porque reclamaria uma decisão mundial. Se uma ou outra nação, usando sua autodeterminação, decidir liberar o uso das drogas, isto poderá acabar criando mais problemas ao mundo. Na verdade, seria uma deliberação que dificilmente vingaria pela pressão das demais nações. Uma iniciativa deste porte só poderia frutificar a partir de uma deliberação global. E como hoje o narcotráfico é um desafio mundial que, inclusive, constitui uma real ameaça ao próprio conceito da civilização humana, salta aos olhos a necessidade de um consenso internacional para se adotar este tipo de mudança.
Naturalmente, a oposição à idéia é enorme, com uma série de argumentos de maior ou menor peso. Não faltam os que consideram que a intenção de acabar com um crime pela simples manobra de liberá-lo é basicamente perigosa porque envolveria uma revolução nos próprios parâmetros da civilidade. Ocorre que há distinções bastante claras. Existem crimes que assim são considerados pelos padrões legais, morais e éticos de praticamente todas as sociedades civilizadas, como roubo, furto, assassinato. Já certas práticas, como o uso de substâncias viciantes, ficam em patamar diverso. A proibição da produção, distribuição e uso de drogas se baseia mais em conceitos de saúde do que de segurança.
Quando se diz, por exemplo, que o cigarro, um vício ainda permitido, produz imensas somas em tributos (além de empregos), os que combatem este vício assinalam que os gastos de saúde como consequência do fumo são muito mais elevados que os benefícios indicados. Bebidas alcoólicas estariam em plano semelhante. Assim, a idéia de tributar as drogas em vez de proibi-las enfrentaria o mesmo argumento: os gastos para atendimento aos viciados seriam mais elevados que os impostos gerados. Ocorre que, atualmente, existem os gastos para atender os dependentes e, ao mesmo tempo, há toda a estrutura de corrupção e violência que acompanha o narcotráfico. Os defensores da proposta argumentam que, eventualmente, a liberação das drogas compensaria pela simples derrocada do sistema criminoso que hoje quase que domina o mundo.
Embora pareça radical, a tese da liberação das drogas como meio para acabar com o tráfico e todas as suas resultantes pode ser incluída entre as opções que são estudadas para enfrentar este que é hoje talvez o maior desafio da civilização. A inegável falta de soluções para atacar efetivamente o tráfico coloca a civilização em risco cada vez maior de afundar na corrupção e na violência. A esta realidade não há como fugir, de modo que o encontro de soluções eficazes para isto representa necessidade inadiável da sociedade humana.

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