Editorial
O grande desafio
Em um desafio aos líderes mundiais, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan, conclamou a todos para que promovam um grande esforço a fim de resgatar mais de 1 bilhão de pessoas da miséria até o ano 2015. Annan afirmou que em tal data todas as crianças do mundo teriam que estar na escola, a epidemia de Aids devia estar contida e a porcentagem de pessoas sem acesso a água potável precisará ser cortada pela metade. Em um documento de 58 páginas sobre os desafios que deverão ser enfrentados pelo mundo e pelas Nações Unidas no século 21, Annan citou as grandes disparidades no setor de saúde, o crescimento dos conflitos internos dos países onde os direitos humanos são rotineiramente violados e a rápida deterioração do meio ambiente. Com o mundo sendo transformado em uma economia global, Annan enfatizou que o desafio central que enfrentamos é assegurar que a globalização se transforme em uma força positiva para todas as pessoas do mundo, ao invés de deixar bilhões delas para trás.
O documento é endereçado aos líderes dos 188 países que compõem a ONU e que foram convidados para o Fórum do Milênio, que será realizado na sede das Nações Unidas de 6 a 8 de setembro. Segundo funcionários da ONU, estão sendo esperados entre 130 e 150 líderes, o que poderia transformar o evento na maior reunião de líderes da história. Os organizadores do fórum esperam que as discussões se transformem em ações práticas, incluindo a adoção dos objetivos sugeridos por Annan. Todas essas coisas são realizáveis se tivermos a vontade de realizá-las, afirma Annan em seu documento. Lembrando que as nações ricas têm uma obrigação com as menos afortunadas, Annan conclamou que elas dêem livre acesso às mercadorias produzidas nos países pobres e considerem o cancelamento das suas dívidas. Ao mesmo tempo, anunciou quatro novas iniciativas da ONU: equipar cerca de 10.000 hospitais e clínicas em países em desenvolvimento com equipamentos modernos; um batalhão de especialistas em computação para dar treinamento em países pobres; providenciar telefones celulares para funcionários de grupos de ajuda em áreas de desastre; e explorar novas soluções para o problema do desemprego entre os jovens.
O que faltou ao apelo do secretário-geral da ONU foi uma ênfase maior sobre as alternativas ao não-atendimento de suas propostas. A situação mundial é atualmente das mais complicadas. A população continua a crescer, principalmente nas áreas mais pobres, e os problemas se multiplicam e potencializam. Os alertas sobre a miséria, a fome, a doença, ainda que repetidos enfaticamente (e, em alguns casos, também por isto) não estão atingindo o alvo porque está faltando ainda a percepção sobre a realidade efetiva em muitas nações paupérrimas do planeta. Ademais, está faltando até a coragem para a observação interna nas nações ricas, que estão convivendo com bolsões de pobreza cada vez maiores, o que tem tornado as relações entre as populações muito mais tensas. A falta de medidas efetivas para mudar esta realidade pode produzir condições para explosões que, em alguns locais, já estão ocorrendo.
A adoção de medidas efetivas destinadas a reduzir a miséria, a minorar o sofrimento de amplas camadas da população mundial, tanto em países pobres como nas nações mais ricas, constitui um imperativo para a própria sobrevivência da raça humana. As distorções, a falta de soluções, as crescentes dificuldades da faixa mais carente poderão levar a reações exacerbadas e, em determinado momento, incontroláveis. Antecipar isto, evitar que a miséria se agrave, dar dignidade à população do mundo é mais que uma obrigação, é quase que uma garantia para a vida do ser humano na face da Terra.





