Feriado desnecessário
É inegável a importância de se comemorar de modo pleno os 500 anos da descoberta do Brasil. É História, é vida, é rememoração necessária do passado que, afinal, constitui a base da própria existência das pessoas e de um povo. O Descobrimento marca o início de uma etapa revolucionária nesta parte do continente americano. O Brasil que começou a nascer ali (não só do ponto de vista dos descobridores, mas até dos nativos que se encontravam na terra quando as naus de Cabral chegaram) estabeleceu uma civilização como não há em nenhum lugar do mundo. De fato, diferentemente do que aconteceu – e ainda acontece – em muitos pontos do planeta, a descoberta do Brasil estabeleceu o começo de uma integração humana que, cinco séculos depois, representa talvez o maior exemplo de vivência humana, com povos e raças se integrando e produzindo uma realidade humana única e, sem dúvida, fantástica.
Mas apesar de todas estas justificativas, e de incontáveis outras, o que parece plenamente certo é que não há como aceitar a tese de se estabelecer um novo feriado para a data, ainda mais na data sugerida pelo Ministério dos Esportes e do Turismo, que quer que o Brasil pare no dia 26, data do culto religioso que será celebrado no local da primeira missa, há 500 anos. A data para marcar os 500 anos do Brasil é o 22 de abril, dia em que as naus de Pedro Álvares Cabral aportaram na nova terra. Dia que, vale rememorar, não tem sido marcado como feriado. Atualmente, o feriado nacional é o dia 21 de abril, data em que se rememora a morte de Tiradentes, o patrono cívico da Nação. Por coincidência, neste ano, também se celebra no 21 de abril a Sexta-feira Santa, feriado religioso a evocar o martírio de Jesus Cristo. Assim, acabam quase se fundindo a Páscoa, no domingo, e a descoberta, no sábado.
Alega o ministro dos Esportes que a Páscoa pode obscurecer a festa da descoberta. Ora, não há como deixar de lembrar que a Páscoa está bastante ligada à história brasileira. O monte avistado pela esquadra, no dia 21 de abril, foi chamado Monte Pascoal precisamente porque se estava, naquela época, na Páscoa. Existe uma antiga música popular que lembra que o Brasil foi descoberto ‘‘dois meses depois do Carnaval’’, o que é certo e o que coincide, quase que precisamente, com a Páscoa. Uma comemoração nada tem a ver com a outra, ainda mais porque o dia efetivo da descoberta é 22, que é o sábado, na verdade o agora chamado Sábado Santo (antigo Sábado de Aleluia, em que se costumava malhar o Judas). Não há qualquer problema em rememorar Tiradentes, no dia 21, sem perder de vista o aspecto religioso da data, assim como nada há que obste os festejos maiores dos 500 anos no sábado e, no dia seguinte, a grande festa cristã da Páscoa.
O Brasil não precisa parar com a finalidade de festejar os 500 anos do Descobrimento. Em verdade, deveria é aproveitar a ocasião para iniciar uma grande caminhada de trabalho e realização. Fazer feriado no dia 22, ainda se poderia entender. Como, porém, o dia da descoberta na festa dos 500 anos acabou caindo num sábado, bem no meio do ‘feriadão’ da Páscoa, nem isto é preciso. A data por si é adequada para festas, até porque logo em seguida há um domingo, e desta vez de Páscoa, para a recuperação do cansaço ou dos eventuais excessos, embora nem esta ou qualquer outra data necessite ser festejada com abusos etílicos. A data é mais importante que tudo isto. E o sentido maior, a celebração de um povo a caminho de seu grande destino, prescinde de feriados inventados.

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