Otimismo compartilhado
Em editorial publicado ontem, o jornal britânico ‘Financial Times’ afirma que as perspectivas para a economia da América Latina são positivas, aconselhando, porém, cautela para os investidores. Segundo o jornal, a previsão feita por banqueiros durante o encontro anual do Banco Interamericano (BID), realizado em Nova Orleans na semana passada, de que a região poderá receber em breve um grande fluxo de capital, é uma boa notícia, mas não significa que os obstáculos para a economia da região acabaram. O periódico reitera que a mudança favorável nas economias latino-americanas é óbvia, indicando que o fluxo de capitais neste ano deve crescer cerca de 40%, atingindo seu maior nível desde 1997. Entretanto, o jornal alerta que em muitos países, em especial os menores, a melhora reflete apenas o aumento nos preços das commodities.
As previsões de crescimento para este ano no continente estão sendo elevadas para 4%, expansão que, segundo o jornal, poderia ser ainda maior. A elevação do rate de créditos de investimentos do México, anunciada no mês passado, permitirá que fundos de pensão e empresas de seguro de vida comprem bens naquele país. O comentário destaca que enquanto esse dinheiro vai para o México, fundos para mercados emergentes vão se voltar para outros mercados de alto retorno, principalmente Brasil e Argentina. Alguns opinam que essas economias poderiam também ter seus períodos de investimentos elevados de dois a três anos, o que reforçaria um processo de convergência similar ao do mercado de títulos europeu na segunda metade dos anos 90. O jornal britânico alerta aos investidores, contudo, sobre o fato de que a maior parte do continente latino-americano não vai se beneficiar com essas tendências. Investimentos diretos em ações estão concentrados no México e no Brasil.
Muitas bolsas de valores da região estão vendo alguns de seus maiores estoques e liquidez migrarem para Nova York. Além disso, empresários locais em vários países permanecem céticos em relação ao futuro de suas economias. Os investimentos de capital caíram 25% na Venezuela no ano passado e não estão dando sinais de recuperação. A instabilidade política também está prejudicando o Equador, Colômbia, Peru e algumas partes da América Central e Caribe. O pior, porém, conforme conclui o comentário, é que toda a América Latina permanece vulnerável a qualquer deterioração significativa no cenário externo. O continente não produz capital suficiente por conta própria e não distribui eficientemente o que produz. ‘‘Enquanto a região não fizer essas duas coisas, permanecerá vulnerável a eventos que ocorrerem fora de suas fronteiras’’, assinala o editorial.
O reconhecimento de um dos mais importantes jornais de economia do mundo à favorável perspectiva para a América Latina serve para confirmar as projeções positivas que vêm sendo feitas nos últimos tempos. Paralelamente, o alerta que está presente no editorial reflete também uma preocupação real e sinaliza para a necessidade de se enfrentar com seriedade os desafios que podem modificar estas boas previsões. Ademais, o dado final sobre o fato de a América Latina ainda não produzir capital por conta própria e, adicionalmente, não ter eficiência na distribuição do que produz constitui um alerta que deveria ser encarado com muita objetividade pelas autoridades em cada um dos países. Os problemas são facilmente detectáveis em todo o continente: produzir mais, distribuir melhor. Se houver um trabalho interno concreto para enfrentar estes fatores, sem dúvida as previsões positivas vão se concretizar efetivamente.

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