Povo fora das festas
A esmagadora maioria da população brasileira não participou das festividades dos 500 anos de Descobrimento. Boa parte apenas tomou conhecimento dos fatos (em especial os incidentes que marcaram, de modo negativo, a celebração) pelos jornais e pela TV. É possível perceber nisto o imenso abismo que existe entre os brasileiros que tentam viver dignamente, os que querem trabalhar (quando encontram emprego) e a camada que deveria estar no comando, governando e produzindo condições para que o País efetivamente entre no rumo de um crescimento justo. Porto Seguro, no sábado, parecia como Brasília durante todos os outros dias, uma ilha distante da realidade e dos interesses reais da população. Mais grave, os que festejavam se cercaram de seguranças que não tiveram muita complacência diante dos que pretendiam a seu modo, mas democraticamente, contestar uma festa para a qual a maioria não foi sequer convidada. O que se viu então foi a agressão, o tumulto, as prisões, os ferimentos. Dentre as vítimas, na maior parte, justamente os descendentes dos índios que estavam na terra quando, há 500 anos, aportaram ali as naus portuguesas. Cinco séculos depois, a história se repete: foram espoliados desde então e agredidos de modo abusivo, agora.
Uma nota oficial, emitida ontem pelo Ministério da Justiça, para informar que o presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Carlos Frederico Marés, foi exonerado do cargo pelo ministro José Gregori, é uma espécie de complemento a este desencontro entre os brasileiros e os seus governantes. Com efeito, como se recorda, Marés havia adiantado a intenção de se demitir por não concordar com a política a respeito dos índios e também com o modo pelo qual se tratou o protesto deles. Mas o ministro resolveu se antecipar, certamente para desmoralizar o agora demitido presidente da Funai. E, na nota, depois de informar sobre a demissão e indicar um presidente interino, o Ministério completa antecipando que o novo titular a ser designado vai se incumbir de executar a política do governo federal ‘‘de promoção, dignificação e defesa da causa indígena, com toda decisão, equilíbrio e responsabilidade’’.
Palavras enfáticas que não mostram qualquer compatibilidade com os fatos. Seguramente, os brasileiros vão ouvir ou ler, no começo da próxima semana, palavreado idêntico durante as comemorações do Dia do Trabalho. Não vão faltar, naturalmente, os chavões demagógicos, os louvores das autoridades em relação à dignidade do trabalho. Mas, do mesmo modo como este discurso em face da situação dos índios, há um vazio imenso entre a condição atual do trabalhador, o que inclui a falta de emprego, e o discurso dos que deveriam governar mas se mostram mais preocupados em manter suas sinecuras e vantagens, sem nenhuma real disposição de atender aos legítimos anseios de uma população esperançosa, mas já muito cansada.
Os brasileiros que não participaram das celebrações dos 500 anos, que certamente também não vão comemorar o Dia do Trabalho, até porque a situação atual de quem quer trabalhar é muito difícil, continuam a esperar que a conscientização de cidadania alcance, e logo, os representantes eleitos para governar este imenso Brasil. É uma espera difícil e cada vez menos esperançosa. E isto deveria alertar os membros do Executivo, do Legislativo e mesmo do Judiciário, envolvidos em suas pendências e desligados da angústia de todo um povo. Já passou da hora de se deixar de lado os discursos cheios de palavras e vazios de conteúdo e se partir para atender aos legítimos reclamos de um povo que quer, apenas, uma vida digna, com trabalho e reconhecimento.

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