Os números dos economistas da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo (Fipe) revelando que as reformas empacadas no Congresso Nacional fariam o País crescer 6,3% ao ano, gerando quase 2 milhões de empregos, aumentando 18% os investimentos e 5% o consumo e reduzindo os déficits público e comercial, são uma informação de peso na luta do governo e da sociedade pelas mudanças. Eles mostram categoricamente que as reformas trarão benefícios extraordinários para o País e isto deve ter o apoio tanto de quem quer a continuidade do processo de estabilização como de quem, na oposição, deseja um novo patamar de crescimento econômico e social para o Brasil.
É de se perguntar, então, por que elas não acontecem? E a resposta é que não acontecem simplesmente porque interesses corporativos e disputas de cunho eleitoral estão no meio do caminho.
Desde que o plano de estabilização foi formulado, no governo Itamar Franco, sabe-se que nada seria permanente sem profundas reformas nas estruturas nacionais, principalmente na Previdência, no sistema tributário e na administração do Estado brasileiro. O tempo passou, o programa mostrou sua viabilidade, o Brasil entrou em uma nova era, com inflação cada vez menor e maior poder de compra da população. O quadro só não é melhor porque o desemprego aumentou, desnecessariamente, e há certa inquietação sobre a continuidade do plano de estabilização.
As reformas fariam desaparecer alguns dos pontos críticos do programa. Haveria mais empregos, o déficit público e da balança comercial seria reduzido e as perspectivas do projeto de estabilidade seriam melhores. O estudo da Fipe, aliás, não traz nenhuma novidade. Todos já sabemos que o País terá condições muito melhores no futuro se acabar com as principais causas da inflação e do subdesenvolvimento. O que não se tinha eram números que expressassem isto. Mas mesmo sem eles, a maioria da população sempre considerou as reformas necessárias.
Agora, só falta o Congresso se convencer da evidência dos números anunciados e desvencilhar-se das pressões corporativistas e eleitoreiras. Até agora, o Congresso mantém-se preso a velhas práticas clientelistas e fisiológicas que deram origem a muitos dos males que as reformas pretendem superar.
Não é só a atual Constituição a responsável pelas dificuldades que o Brasil enfrenta. Havia antes, e persistiram depois, muitos vícios e abusos. Mas a Carta atual, que foi precedida de grande e positiva expectativa, acabou introduzindo um rosário de favores e benefícios que enganam os que os recebem e prejudicam a coletividade. Logo que a Constituição foi promulgada, o então presidente José Sarney chegou a dizer que o País ficara ingovernável. A incompetência de seu governo encarregou-se de piorar bastante as coisas, mas é fato que os governos seguintes também sentiram na pele os privilégios consagrados em 88.
O nó da questão está em mudar a cultura das elites políticas, profundamente viciadas no ópio paternalista, demagógico, clientelista e fisiológico que permeia toda a atividade parlamentar e de governo neste País, desde o regime das Capitanias Hereditárias.
A inclusão de privilégios na Carta de 88 representa apenas a perpetuação de uma mentalidade que faz parte da própria história do País. Isto é que precisa mudar. Estão aí os números, claros e precisos, de um trabalho meticuloso feito por técnicos acima de qualquer suspeita. Só não vê quem não quer. E a sociedade brasileira deseja, fervorosamente, que o cego por interesse não seja simplesmente o Congresso que ela elegeu.

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