Uma luta comum
Não representa um consolo, mas se trata de uma constatação: a corrupção não constitui uma prerrogativa do Brasil. Ao contrário, viceja em todo o mundo, não fazendo sequer distinção entre os países, pobres ou ricos, do hemisfério norte ou sul. Possivelmente, uma consequência mesmo da fraqueza e da natureza humana, este mal entretanto não pode, apesar de estar entranhado em quase todas as estruturas governamentais do mundo – e também em muitas entidades da iniciativa privada –, ser aceito com fatalismo, até porque ameaça a própria civilização humana. Com efeito, a corrupção enfraquece as instituições, faz com que a coletividade passe a descrer de seus governantes e, numa sequência natural, do sistema de Governo, abrindo-se com isto as portas para a ação deletéria dos totalitários de todos os naipes que proliferam naturalmente em situações como as que se vive hoje no Brasil e em muitos países do mundo.
A resposta natural a esta situação se faz através de uma luta incansável dos cidadãos. No Brasil, o despertar desta chamada consciência de cidadania tem sido notado pela atuação de entidades as mais variadas que usam dos meios possíveis para enfrentar este desafio. Não é um trabalho fácil, entretanto é o que resta para a defesa mesmo dos princípios que devem nortear a vida em sociedade, com o respeito aos direitos comuns e, especialmente, sem as mazelas da corrupção que infelicita a vida e subverte os próprios valores éticos e sociais.
Para esta luta, é justo que se busque também lá fora exemplos da ação comunitária em defesa da ética e da moralidade. Da Coréia do Sul, um país em que a corrupção política é tão grande que a população já disse que se um deles se afogar num rio, todos os peixes ficarão com a barriga para cima, os ativistas resolveram conclamar os eleitores a não votar em 86 candidatos comprovadamente corruptos. Uma checagem dos 1.153 candidatos que se apresentaram ao povo naquele país revelou que 17% haviam sido condenados à cadeia, cerca de 40% deles não haviam recolhido impostos nos últimos 3 anos e cerca de um quarto do total não havia cumprido o serviço militar obrigatório. A campanha para fazer com que o eleitorado não sufragasse os candidatos notoriamente corruptos atingiu um resullado que pode ser considerado satisfatório: dos 86 nomes apontados pelos ativistas, 59 não conseguiram se eleger.
Este é um caminho simples e que pode ser seguido também por aqui. Na verdade, algumas entidades já têm feito este tipo de trabalho, revelando fatos contra candidatos e sugerindo que o povo não os eleja de novo. Todavia, os resultados reais desta atuação têm sido poucos, de tal modo que apesar de tudo é grande o rol dos políticos denunciados e punidos que conseguem o apoio eleitoral para continuar nos cargos (e, obviamente, na corrupção). O que se faz necessário é ampliar este tipo de atuação, ao tempo em que se conclama o povo a ampliar o senso de sua responsabilidade como eleitor e como cidadão.
Efetivamente, diante de tantas denúncias, de tamanhas demonstrações de abuso, o cidadão corre o risco de perder a fé nas instituições. Este, porém, não é o caminho, não leva à solução. As instituições são boas, as pessoas é que falham. É preciso que haja a percepção correta desta realidade e que se multipliquem as ações objetivando identificar e denunciar aqueles que traem o mandato popular e se locupletam, através de todo o tipo de ação ilegal e mesmo imoral. Em praticamente todo o país existem hoje entidades que lutam para exigir justiça, identificando os corruptos de todos os tipos. Importa que o cidadão preste atenção a isto, que acompanhe este trabalho e que se una a esta luta que, no fim, é sua própria batalha.

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