Corrupção que provoca asco
Ao dar posse a José Gregori no cargo de ministro da Justiça, o presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que o principal desafio do novo ministro será a luta contra a violência, a corrupção e a impunidade. O presidente enfatizou que a sociedade brasileira exige isto, já. Segundo ele, a população não quer saber quem é burocraticamente responsável pelo combate ao narcotráfico, ao crime organizado e à violência, abordando assim, ainda que de modo indireto, a questão que acabou levando à substituição do ministro da Justiça. Segundo Fernando Henrique, esta é uma tarefa de todos e precisa ser bem coordenada. E na visão do presidente, José Gregori é a pessoa mais capacitada para fazer essa coordenação.
Por seu turno, o novo ministro concordou com o presidente, ao assinalar como principal desafio no seu ministério a elaboração de um plano de ação para enfrentar a violência e a impunidade. Ele lembrou, porém, que o Ministério da Justiça tem uma pluralidade de funções e apontou outras ações que estão sendo desenvolvidas, como a modernização das polícias Federal e Rodoviária Federal, elaboração da Lei Orgânica da Polícia Rodoviária Federal e a construção de presídios, reafirmando a meta de abertura de 15 mil vagas em penitenciárias neste ano. Gregori destacou ainda que irá apoiar a disseminação de penas alternativas para delitos leves cometidos por pessoas que não constituam perigo para a sociedade.
A concordância do presidente e do ministro em face dos maiores desafios do Ministério da Justiça não surpreende. Do mesmo modo, não causa maior espanto o tom do pronunciamento do chefe da Nação ou mesmo a reação dele ao afirmar, em discurso aos militares das Forças Armadas que sente ‘asco’ diante das denúncias de corrupção envolvendo homens públicos e que têm sido veiculadas quase que diariamente pela imprensa. Dá a impressão de ser um reflexo do sentimento de ponderável parcela da população. Todavia, e este é o maior problema, os pronunciamentos oficiais do presidente não provocam o efeito que deveriam causar.
Se o povo fica revoltado com os abusos, enojado com a corrupção, assustado com a violência e insatisfeito com a impunidade, é normal. Já do presidente da República espera-se mais do que discursos cheios de adjetivos, mas sem substância. Além disso, é muito mais grave ouvir colocações como estas de alguém a quem incumbiria fazer alguma coisa mas que cobra soluções dos outros, do Congresso, da Justiça, como se o Executivo Federal estivesse imune a todos os males e não houvesse condições ao presidente, com tantas atribuições, de propor soluções ao invés de ficar no discurso demagógico e sem efeito. Pior ainda é o fato de que, no mesmo discurso em que se disse enojado da situação, o presidente enfatizou que as denúncias não atingem o governo federal, dizendo que ‘‘o Estado brasileiro é imune a esses mecanismos de desmoralização e corrupção’’.
Esta simples observação do presidente diante de tantas denúncias envolvendo ministros e Ministérios, em face dos abusos sem conta, a atos de nepotismo que envolvem o próprio presidente, acaba com todo o arcabouço do aparente repúdio presidencial a um estado de coisas efetivamente inaceitável. Com este tipo de colocação, Fernando Henrique Cardoso deixa no ar a idéia de que não sabe o que se passa em seu próprio governo ou, o que seria ainda mais sério, acredita que o povo continua na ignorância dos abusos que se cometem em todos os níveis da administração. E acaba deixando no ar dúvidas reais sobre a possibilidade de se ver o país livre desta asquerosa corrupção.

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