Editorial
O acordo anunciado entre a indústria norte-americana de cigarros e o governo, garantindo o repasse de US$ 368,5 bilhões nos próximos 25 anos aos hospitais que tratam dos males provocados pelo fumo, representa o mais importante passo desde que se começou a destacar os nefastos efeitos do vício sobre a saúde humana. É uma enorme mudança em comparação com a imagem que, há menos de um quarto de século, se vendia em relação ao cigarro. Com efeito, milhões se identificavam com os heróis do cinema, que com um cigarro em uma das mãos e uma arma na outra, liquidavam os maiores vilões do mundo, normalmente com uma bela jovem ao lado. Ao longo dos anos, o cigarro foi ligado, especialmente em peças publicitárias de maior cuidado, com os eventos mais fantásticos da vida. O sucesso estava intimamente ligado ao vício, tranquilamente aceito pela sociedade dita civilizada.
Nos últimos anos, o despertar sobre os malefícios do fumo (e também do álcool, outro vício socialmente aceito), foi se tornando cada vez mais intenso, de tal modo que hoje o fumante está se convertendo em uma espécie de ser marginal, com restrições cada vez maiores. Isto decorre do conhecimento sobre os devastadores efeitos do cigarro, que vão além do viciado, atingindo também os que inalam a fumaça. Até por isto há quem defenda que o cigarro é pior que o álcool, na medida em que os efeitos do segundo apenas atingem o consumidor. Sabe-se que não é bem assim. Ambos os vícios são, na verdade, a origem de tragédias pessoais e coletivas.
O acordo firmado nos Estados Unidos, e que ainda precisa ser aprovado pelo Congresso, constitui o reconhecimento da própria indústria aos males do vício. Mas não é uma medida de caráter humanitário, como talvez possa parecer. Pelos quase US$ 400 bilhões que vai pagar em 25 anos a indústria se livra das ações que estão se tornando cada vez mais comuns no País, com o pedido de elevadas indenizações. O valor estabelecido, assim, funciona como uma espécie de pagamento global, que pelo menos evita outros procedimentos judiciais.
Pelo acordo, a indústria também se compromete a difundir os males relativos ao vício e a mudar o seu sistema de publicidade, acabando com aquelas ilusões de sucesso ligado ao hábito de fumar. Com isto, espera-se que o vício recue, o que é também grande preocupação de saúde tanto nos EUA como no mundo. Pois as estatísticas revelam que, apesar de tudo o que já se sabe sobre o vício, tem crescido o número de fumantes. Quer dizer, nem mesmo os alertas que já vêm sendo feitos nos últimos anos serviram para reduzir o total de fumantes ou diminuir o vício como um todo.
Esta deve ser, sem dúvida, a questão a provocar um aprofundamento em relação ao tema. Não se trata apenas de cobrar indenizações, de sitiar os fumantes, mas de entender que é necessário modificar os próprios conceitos da educação a respeito do vício. O fato de a indústria do fumo representar ainda um fator de enorme peso econômico, inclusive garantindo grandes quantias em impostos para os governos, também tem influência na questão. Aquela famosa questão do vício sustentando a virtude representa outra das hipocrisias da sociedade, tão bem percebidas pela maioria. Não se há de vencer o vício com propaganda negativa, com contrapropaganda, com gordas indenizações, mas através de um trabalho de educação, que leve o cidadão a deixar todas estas formas de fuga em sua vida.





