Ameaça às instituições
Sempre que acontece um golpe de Estado contra as instituições democráticas duas ações são imediatamente adotadas: é instaurada censura à imprensa e se fecha o Legislativo. Em alguns casos, quando os golpistas tentam se mostrar um pouco mais espertos (ou, como tem acontecido mais recentemente, quando querem mascarar suas intenções, inclusive para fugir de sanções externas) apenas adotam medidas visando tirar os poderes ao Legislativo, o que se fez, vale lembrar, em 64 no Brasil. Naquela época, a autoproclamada Revolução cassou mandatos (não só de legisladores, mas também de detentores eleitos de Executivos) e estabeleceu normas restritivas à ação legislativa. Quando, o que aconteceu em certas ocasiões, os membros do Legislativo tentavam ir além do que o regime permitia, vinham as represálias, entre as quais a edição do Ato Institucional nº 5, que foi uma das maiores violências estabelecidas à época no País.
Em outras oportunidades, os totalitários sequer usam subterfúgios. Foi o que aconteceu no Peru, onde o presidente eleito, Alberto Fujimori, resolveu tomar todos os poderes na mão, fechou Legislativo e Judiciário (sob a alegação de que atrapalhavam o trabalho do governo) e conseguiu se manter no cargo até agora, sem nenhuma disposição de deixar o Poder, o que também faz parte do código dos tiranos. Agora, seguindo quase que o mesmo esquema, é o presidente da Colômbia, sr. André Pastrana, quem resolve propor um referendo destinado a revogar o mandato dos atuais legisladores do país, reduzindo o total de parlamentares e convocando novas eleições. A desculpa ali é um pouco diferente da alegação do presidente peruano: Pastrana vai direto ao ponto, afirmando que a medida visa acabar com a corrupção na política do país.
Pastrana usa as palavras certas para atingir a opinião pública. E consegue ir até além do que esperava porque sua idéia encontra eco em outros países, inclusive o Brasil. Não é de hoje que há gente falando que a fórmula para acabar com a corrupção é liquidar com os Legislativos. Há dois equívocos nesta colocação: o primeiro sobre o fato em si de que a corrupção é dos membros e não do Poder; e o segundo é que, infelizmente, a corrupção não existe apenas naquele Poder, estando presente em praticamente os outros dois, o Executivo e o Judiciário. Entender, por outro lado, que só se acaba com este câncer, liquidando com o poder, é considerar que só se consegue vencer alguma doença matando o paciente.
Na Colômbia, como no Brasil, no Peru ou em praticamente todos os países democráticos do mundo, existe este mal chamado corrupção. Enfrentá-lo e vencê-lo é o desafio maior das sociedades civilizadas e é certo que não será pela supressão da liberdade, pela destruição da democracia que se chegará a um bom resultado. Ao contrário, regimes totalitários são muito mais corruptos que os democráticos, com a agravante de que usam da violência, que é natural neles, para se manter. Vencer o totalitarismo e reimplantar a democracia, como aconteceu no Brasil após 21 anos de ditadura, em 1985, é o primeiro passo para restaurar a dignidade humana. Depois, vem o segundo passo, que é o de escoimar o regime dos corruptos que vicejam como erva daninha em toda parte.
Não será acabando com os Legislativos que se acabará com a corrupção. O que é necessário é vencer também este tipo de idéia daninha e persistir na luta pela moralização dos governos, o que se tem tentado fazer no Brasil, fruto real do fortalecimento da consciência de cidadania que é marca efetiva do progresso democrático em um país. Este é o trabalho que se requer para limpar o país dos corruptos que existem em todos os ramos do Poder.

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