Editorial
O fim das mentiras
Primeiro, foi a imensa dificuldade para a obtenção das assinaturas suficientes a fim de instalar a CPI do Narcotráfico na Assembléia Legislativa. O Executivo estadual era contra e sua base no Legislativo usou de todos os meios com o objetivo de evitar que a referida Comissão se concretizasse. Todavia, com o apoio do PSDB, a oposição conseguiu o total de adesões necessário e, afinal, estava pronta para instalar a CPI destinada a pelo menos aprofundar as denúncias e investigações sobre a situação do tráfico de drogas no Estado. Eis que então, como num passe de mágica, a Assembléia acabou criando outras quatro Comissões Parlamentares de Inquérito, que envolvem questões sem dúvida relevantes (roubo de cargas, adulteração de combustíveis e sonegação de impostos pelas distribuidoras de petróleo e postos de gasolina, medicamentos e cartel de supermercados) e que já foram instaladas.
Ao observador menos avisado, pode surgir a impressão de que, diante do exemplo do interesse pela questão do tráfico, a Assembléia paranaense se pôs em brios e resolveu agir com firmeza também diante de outros assuntos que de fato merecem aprofundamento. O propósito, porém, é outro, e manobra similar já foi usada no passado: com tantas CPIs e afinal, como se sabe, a Assembléia tem muito mais coisas a fazer, além das investigações especiais acabará havendo um esvaziamento da investigação que o Executivo não queria. A questão do narcotráfico, como as demais agora também transformadas em CPIs, vai cair no vazio da falta de condições de trabalho, ao mesmo tempo em que a Assembléia tenta passar à população a idéia de que quer investigar temas de apelo geral.
Ocorre que a população já passou da fase de acreditar piamente nas artimanhas daqueles que deveriam estar cuidando de assuntos do interesse comum. A falta de disposição real de investigar as implicações do narcotráfico, notadamente as ligações de traficantes com policiais, salta aos olhos. A desculpa segundo a qual neste momento tal CPI pode ter aspectos político-eleitorais, com reflexos sobre o pleito municipal que se aproxima, tem toda a aparência de mais um engodo. A impressão que fica mesmo é a de que não se quer aprofundar nada, de que o interesse do Executivo é o de deixar o assunto de lado, evitando todas as consequências que um trabalho real de investigação possa trazer. Mais sério é que diante desta idéia, surge e se robustece outra: a de que os que tentam evitar a investigação têm medo do que possa vir a ser revelado. Não se trata, no caso, nem de cogitar sequer sobre suposta culpa de políticos, mas de sentir que existe o medo sobre as eventuais (e até naturais) ilações que todo este tipo de procedimento da Assembléia Legislativa suscita.
No Paraná, como no Brasil, se está diante de uma série tão imensa de denúncias que a população simplesmente não pode mais aceitar este tipo de ação que visa confundir ao invés de esclarecer. Com um detalhe que não pode ser descartado: as denúncias envolvem o setor da segurança do Estado, que é vital para que os paranaenses possam viver e trabalhar. As prisões de policiais, durante os depoimentos feitos à CPI nacional do narcotráfico, as revelações posteriores e a própria ação inicial da polícia, sob o comando agora de novo Secretário, falam por si da situação. Atitudes que pareçam fuga ao legítimo reclamo do povo no sentido de esclarecimentos plenos e de limpeza total da polícia tornam ainda pior a situação para os deputados e o governo como um todo. O tempo dos truques baratos e das mentiras já se escoou. O senso de cidadania dos brasileiros exige seriedade e honestidade na investigação e punição contra todos os corruptos que estão enlameando o País.





