Solução urgente para a Saúde

A nova Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira é criticada por todos os lados, inclusive dentro do governo. Domingo passado, foi ridicularizada num programa humorístico de televisão, o de maior audiência atualmente. Várias vezes os protagonistas se referiram à CPMF, fazendo contas que ora subtraíam o imposto, no caso de um ‘empréstimo’, ora o acrescentavam ao total, no caso de um pedido de ‘resgate’. No final, para que não pairassem dúvidas, o programa deixou claro que se tratava do ‘imposto do Jatene’, o ex-ministro da Saúde que foi o principal responsável pela recriação do imposto do cheque, o qual, a não ser que aconteça alguma coisa, deve começar a ser cobrado no próximo ano.
Os antigos romanos já diziam que um modo eficaz de combater alguma coisa era expô-la ao ridículo. Fazer de um tributo o mote de um programa humorístico serve tanto de piada como de senha para deflagrar uma campanha nacional com o fim de derrubar o projeto, já aprovado pelo Congresso. Entretanto, a situação da saúde pública no Brasil é tão trágica que o riso, aí, não é o melhor remédio. É preciso aprofundar a discussão, ao invés de ridicularizar o novo imposto.
O cirurgião Adib Jatene centrou praticamente todo o seu trabalho como ministro na luta para conseguir mais recursos para o sistema oficial de Saúde. Foi dele a idéia de restaurar o imposto do cheque, a fim de obter recursos para melhorar as condições dos serviços de saúde no País. Quando lançou a proposta, o ex-ministro da Agricultura, senador José Eduardo, sugeriu que os recursos fossem rateados com a Agricultura para que o sistema produtivo rural, também carente, recebesse ajuda oficial. No fim, ficou somente a proposta para a saúde, não só por causa da luta do ministro Jatene mas porque, efetivamente, prevaleceu o entendimento de que a situação da saúde no Brasil era mais do que trágica.
E continua a ser. Com ou sem o dr. Jatene no Ministério, o drama existe. O sistema atual, nas condições vigentes, está praticamente falido. No fim da semana passada, anunciou-se que os hospitais de Londrina e da região estão perto do colapso e se não se resolver a questão do repasse dos recursos do SUS, o risco é que aconteça aqui o que já ocorre em outros lugares do País. E ninguém desconhece que as mortes de idosos no Rio de Janeiro, de renais crônicos em Caruaru e de recém-nascidos em berçários de hospitais de Fortaleza, além de outras tragédias menos conhecidas, devem-se à falta de recursos para a Saúde pública.
A sucessão de casos e a inoperância do setor público para evitar que se repitam mostram, perigosamente, que o Brasil está perdendo a sensibilidade. Esta é uma maneira de fugir à realidade. Quando não se consegue resolver alguma coisa grave, tenta-se ficar o mais longe possível dela. As dezenas de mortes que têm ocorrido por desleixo e falta de recursos obrigatórios do governo federal são vistas como um caso isolado ou alguma coisa distante. Jamais a autoridade pode fazer de conta que aquilo não existe nem tem solução.
O ex-ministro da Saúde tem o mérito de haver lutado como um D. Quixote contra coisas que não eram bem moinhos de vento, mas algo muito mais sério. Moinhos do descaso, da irresponsabilidade, da insanidade, certamente. O povo brasileiro nunca mereceu que lhe acontecesse tanta desgraça junto. Não importa se o novo imposto é bom ou ruim. Isto é o de menos. O importante é discutir a fundo toda a questão e descobrir alternativas viáveis e seguras para se mudar o quadro em que estamos.
O caos da Saúde no Brasil exige soluções e não piadas ou atitudes autistas. Se a CPMF é um mal, que se encontre outras saídas. O que não pode continuar é insensibilidade de quem cruza os braços e olha a tragédia passar como se nada fosse ou nada tivesse a ver com ela.

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