Editorial
Começa amanhã, em Nova York, a Segunda Cúpula da Terra, com a participação de representantes da ONU, diplomatas e Organizações Não Governamentais de defesa do meio ambiente. O encontro se realiza cinco anos após a cúpula do Rio de Janeiro, onde pela primeira vez na História os países mais importantes do mundo manifestaram uma real preocupação com o meio ambiente, formulando e aprovando projetos cujo objetivo é sustar a destruição que o ser humano vem promovendo no planeta desde que pôs os pés aqui. Questões fundamentais foram apresentadas no encontro, que teve como cenário o magnífico panorama da Cidade Maravilhosa, bela e dilacerada por crimes cometidos contra a vida e o o ambiente, seja pela violência da miséria e do tráfico de drogas, seja pela poluição da Baía da Guanabara e outras agressões ecológicas.
A reunião de Nova York, símbolo da prosperidade a qualquer preço, deve ser uma espécie de balanço sobre o que foi feito desde a primeira cúpula, com a adição de novos problemas que se tornam cada vez mais prementes, como a disponibilidade de água potável no mundo. Conforme dados recentes, pelo menos 20% da população mundial não têm acesso a água potável e as perspectivas para o futuro são, no mínimo, sombrias, o que exigirá políticas globais para preservar as fontes atuais e para descobrir novas reservas, que podem ser até mais importantes que as de petróleo.
Isto, como qualquer outro tipo de atitude em defesa da Terra, no que ela possui de essencial para manter a vida humana, exige recursos. E aqui, os promotores da Segunda Cúpula da Terra esperam, talvez ingenuamente, que os governos dos países mais ricos do mundo, membros do chamado G-8, tomem iniciativas para assegurar o sucesso da conferência ambiental.
O G-8 reúne os sete países mais ricos do mundo e a Rússia, incorporada ao grupo devido a sua antiga posição na Guerra Fria. Os chefes de governo dos oito completam hoje seu encontro em Denver, analisando as tendências do mundo, buscando meios para ampliar a globalização e vendendo a nova imagem de um planeta sem fronteiras, transformado num mercado total. São tendências importantes para o futuro da sociedade humana, mas a discussão dos 8 não contempla o futuro físico do Planeta. Quando há desinteresse até pelos problemas humanos envolvidos na globalização, é de duvidar que questões ambientais possam motivar ou sensibilizar o G-8.
É, sem dúvida, o grande paradoxo: o encontro que tenta produzir soluções para que o homem sobreviva no Planeta precisa do apoio dos mais ricos que, aparentemente, não estão muito ligados a este tipo de problema. Não há dúvidas de que as preocupações da Cúpula da Terra deveriam interessar ao G-8. Afinal, a conferência ambiental tenta preservar o mundo, diminuir a depredação natural, propiciar condições para que a humanidade continue na face do planeta. E é indiscutível que sem gente e, mais ainda, sem condições civilizadas, o G-8 simplesmente perderá sua própria finalidade. Se os homens precisarem guerrear pela água que precisam para beber, é certo que a civilização terá entrado num beco sem saída.
A Segunda Cúpula da Terra deveria ser a sequência lógica da reunião do G-8, se todos quiserem mesmo o progresso da humanidade. Importa esperar que os líderes dos países mais ricos percebam isto e sintam que têm obrigações com o futuro do homem e do Planeta que habitam, nem que seja com o objetivo imediatista de fazer mais lucros em cima disto.





