União contra as drogas
O noticiário envolvendo o tráfico de drogas no Brasil e suas terríveis ramificações nos mais insondáveis segmentos do poder vem estarrecendo a opinião pública brasileira nos últimos meses. A atuação da CPI do Narcotráfico em inúmeros Estados serviu para ajudar a desvendar parte do imenso braço das máfias que atuam escudadas na impunidade. Muitas são as críticas à CPI, principalmente no que se refere ao suposto ‘show’ político de seus membros e às acusações públicas feitas por testemunhas muitas vezes sem o respaldo de provas concretas. Em algumas regiões, de qualquer forma, surgiram situações verdadeiramente escabrosas a atrair a mídia, principalmente com a prisão de nomes de peso. Mas o que chama a atenção é que o lado mais fraco de toda esta teia – aquele formado pelos usuários de drogas –, normalmente tem seu drama cotidiano relegado a segundo plano. O desmonte das estruturas do narcotráfico visa, sobretudo, cortar o oxigênio das redes de fornecimento e punir exemplarmente os responsáveis. Mas o que não se pode perder de perspectiva é o rastro devastador que a droga deixa nas ruas e favelas, nas casas de gente rica e pobre, em todos os níveis, a toda hora e em todo lugar. Olhar para os dependentes e dar a eles uma atenção digna é tão importante quanto localizar os chefões e colocá-los na cadeia.
Não deixa de ser um alento, portanto, um projeto que está nascendo no Noroeste do Paraná e que pode e deve servir de exemplo para todo o Estado e, sem exagero, ao País. Uma iniciativa tão simples quanto reveladora do esforço comunitário na solução de seus desafios. Os municípios da região de Umuarama decidiram se unir e poderão ser os primeiros do Brasil a criar um consórcio intermunicipal para construir e manter centros de recuperação de crianças e jovens drogados. O governo do Estado já aprovou a idéia e garantiu a liberação de recursos para a construção dos centros, projeto que envolve os mais diversos setores, incluindo prefeitos, juízes, promotores, representantes de conselhos tutelares, Secretaria da Criança e ainda o Instituto de Ação Social do Paraná. O esforço mais do que se justifica: o consumo de drogas entre a população infanto-juvenil cresceu assustadoramente nos últimos anos, na mesma medida das ramificações criadas pelos traficantes em todas as áreas. O Noroeste do Estado revela uma realidade que é nacional: ali, o vício já abraça crianças entre 7 e 8 anos. Os dois centros de recuperação que se pretende construir terão 30 vagas cada um e atenderão os 32 municípios que compõem a Associação dos Municípios de Entre Rios. Hoje, os poucos centros que existem só atendem adultos.
A iniciativa das prefeituras é, por si só, um exemplo entre tantos outros que o municipalismo paranaense já deu ao longo da história recente. Mas neste caso específico ganha força redobrada por espelhar a responsabilidade comum no esforço para reverter um quadro que se torna mais grave a cada dia. Os relatos de jovens e crianças mergulhados no mundo das drogas são estarrecedores pelo que contêm de abandono, violência e solidão, normalmente no rastro de famílias desfeitas, miséria, falta de ensino e oportunidades, presas fáceis do tráfico. Mais do que tudo, essas pessoas precisam de ajuda social e médica. Na crise que assola hoje os municípios, o atendimento tende a ser precário ou simplesmente inexistente. É preciso, portanto, essa união de forças para se ganhar um tempo precioso no trabalho de recuperação desse contingente sem futuro e que tem nas drogas o sentido único de suas vidas. Sem ajuda, o caminho para eles é sem volta.
O narcotráfico é hoje um problema mundial, uma ameaça ao governo, à Justiça e aos povos. Movimenta milhões, está incrustado nos Poderes, espalha medo e morte, faz do mercado das drogas um pesadelo sem fim. Mas nenhum combate será eficaz se uma das pontas não contemplar o que há de mais caro nessa tragédia mundial: as vidas humanas destroçadas pelo consumo de narcóticos. A iniciativa dos municípios do Noroeste do Paraná pode parecer pequena num quadro tão gigantesco, mas é exemplar no que tem de responsabilidade social e solidariedade humana.

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