Editorial
FHC e o desemprego
Quando o presidente Fernando Henrique Cardoso se mostra tranquilo ao informar que a taxa de desemprego no Brasil atualmente é de 4% a 6%, como o fez no encerramento da cúpula do Mercosul, os brasileiros sem emprego - que não são número ou estatística, mas gente que se encontra em situação precária -, tremem. Afinal, era de esperar do presidente da República um sinal de preocupação, indicando que o governo está sensível ao problema e se esforça por atenuá-lo. Mas o presidente e seu governo estão pensando em melhoras no longo prazo - sem dúvida, mais consistentes e seguras - do que em medidas de efeito imediato e passageiro. Isto fica claro na afirmação do presidente de que o melhor caminho para criar empregos imediatamente na região é o acesso ao mercado norte-americano.
Em outras palavras, o presidente está dizendo que a economia brasileira deve voltar-se mais para o mercado externo, o norte-americano em especial, cuja recuperação abre boas perspectivas para as exportações brasileiras tanto de matérias-primas como de produtos industrializados. No entanto, dificilmente haveria resultados imediatos e isto porque o próprio governo não pode dar o que os exportadores mais querem para vender mais: a desvalorização do câmbio.
Isto coloca o governo diante de um dilema, e o único caminho possível para sair dele sem mexer no câmbio é estimular o emprego pelo desenvolvimento da economia interna. Obviamente, isto não exclui as exportações, mas este setor está temporariamente fora de combate. Isto é, sem mudanças macroeconômicas será impossível aumentar as exportações para reequilibrar a balança comercial. Portanto, se da indústria não se pode esperar o plus exportador e gerador de empregos, a direção é única e clara: o incremento das exportações e do emprego deve ser buscado na agricultura. Não há outra saída, e ela seria extremamente benéfica para o País, externa e internamente.
A agricultura brasileira produz hoje menos da metade do que se colhe na Índia, cujo Produto Interno Bruto é a metade do brasileiro. Este exemplo basta para se ver, com olhos de ver, que há uma distorção brutal no organismo econômico brasileiro. Trata-se de deformação picassiana que nos aflige há séculos e não parece ter fim.
O presidente não precisaria ter dito que se disputar a reeleição no próximo ano e entender que o desemprego é um problema, então poderá preparar um programa para resolver a questão. Isto significa que no momento não há qualquer intenção de se trabalhar sobre o assunto, o que torna a situação dos desempregados ainda mais dramática. Se o seu governo tivesse feito uma opção preferencial pela agricultura, haveria vagas no campo para a mão-de-obra menos qualificada dispensada pela indústria. Hoje, somente o setor terciário da economia, o de serviços, pode absorver esta mão-de-obra e o pessoal mais qualificado.
O desemprego é hoje o mais sério problema do mundo e um grande desafio para o Brasil. Mas nós temos, ao contrário da grande maioria dos países, a possibilidade real (!) de resolver este problema aqui mesmo, sem depender de ninguém no exterior. A produção de alimentos é deficitária no planeta e o Brasil pode multiplicar, se não por 10, pelo menos por cinco a sua produção atual de grãos, num horizonte de alguns anos. E isto vai significar empregos para muito mais do que 4% a 6% da população. De quebra, ganharíamos uma estabilidade social que hoje não temos e dificilmente teremos no modelo atual. Se nosso percentual de desempregados é inferior ao de outros países, isto não significa que se deva considerar que tudo vai bem. É imperiosa a necessidade de se encarar a questão com outros olhos, adotando-se então medidas objetivas levando em conta não só os que hoje buscam emprego, mas também os que estão em condições de marginalidade. E se pensarmos nas novas gerações que a cada ano ingressam no mercado de trabalho, o presidente deveria estar seriamente preocupado com o que se passa dentro das nossas fronteiras, e jamais aliviado com o que vê dentro das fronteiras alheias.





