Globalização e miséria
O processo de globalização tem levado a inúmeros questionamentos sobre as consequências da nova ordem mundial e o futuro que ela será capaz de reservar aos povos mais sofridos do planeta. Os avanços tecnológicos em todas as áreas e o formidável crescimento das relações comerciais, num mundo que se pretende sem fronteiras, traz perspectivas novas aos continentes, mas ainda esbarra em questionamentos vitais relacionados às necessidades básicas do ser humano. Para tentar entender tamanha transformação, que se processa em ritmo veloz, organismos internacionais vêm se debruçando sobre o mundo e as perspectivas que reserva para o século 21. E o que têm encontrado merece reflexão ao revelar que nem sempre conquistas revolucionárias se traduzem no fim das desigualdades.
Um bom exemplo desta preocupação está em amplo levantamento realizado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), no qual descarta-se, claramente, qualquer perspectiva de que a globalização determine uma redução dos fluxos migratórios no mundo nas próximas décadas. E a razão é tão simples quanto preocupante: para que a globalização tenha um efeito sensível na diminuição das migrações, terá de atuar de maneira mais igualitária, bem ao contrário do que existe hoje, em que há o que o estudo classifica de ‘‘um grave problema de distribuição’’ dos eventuais benefícios proporcionados pela nova ordem. A verdade é que os maiores proveitos dirigem-se para os países que já ocupavam posições privilegiadas, enquanto os demais continuam a amargar o destino da miséria e do subdesenvolvimento. As migrações internacionais de trabalhadores envolvem atualmente cerca de 120 milhões de pessoas, que representam 2,3% da população mundial. Em 1965, esse número era de 75 milhões. Esses deslocamentos atendem à expectativa de encontrar bons empregos e obter melhor remuneração.
Pelo estudo da OIT, e mesmo com os cálculos mais otimistas, existem poucas dúvidas de que o ritmo ditado pela globalização tende justamente a aumentar as pressões migratórias nas próximas décadas. O autor do relatório, o britânico Peter Stalker, não deixa dúvidas: ‘‘Num mundo de ganhadores e perdedores, os perdedores não desaparecem, simplesmente buscam um lugar para onde ir’’.
Os países industrializados sempre precisaram de mão-de-obra imigrante e barata para realizar os trabalhos que seus cidadãos se recusam a fazer. Mas essa oferta de força de trabalho a baixo custo só vai se restringir se uma maior integração das economias impulsionar o desenvolvimento dos países pobres. Na periferia do mundo, em que milhões de pessoas ainda penam com o avanço das doenças e da fome, tal possibilidade mostra-se por demais distante, e para estes povos de pouco valerão explicações sobre economia de escala. Pelos próprios cálculos da OIT, no período de 1995 a 2025 a força de trabalho dos países pobres aumentará de 1,4 bilhão para 2,2 bilhões de pessoas. Mas nem o comércio e nem os investimentos, nos níveis registrados atualmente, serão suficientes para absorver uma expansão dessa magnitude.
A globalização, da forma como se processa, pouco contribui na luta para colocar as economias mais pobres num processo competitivo. É preciso estimular a produtividade, rever as dívidas destes países e ajudar a proporcionar investimentos capazes de abrir os caminhos essenciais ao crescimento econômico. Em algumas regiões, as disparidades de renda entre vizinhos são enormes. O Produto Interno Bruto por habitante dos Estados Unidos, por exemplo, é seis vezes maior que o do México, enquanto que o da Alemanha é 11 vezes superior ao da Polônia. Na América Latina, o abismo é ainda maior em relação aos países ricos. Sem um esforço para derrubar as fronteiras das disparidades, a globalização tende a aguçar a divisão dos países em classes distintas, relegando-se aos inferiores uma perspectiva nula de crescimento e de futuro.

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