Emergência na saúde
Depois dos juízes, agora parece estar chegando a vez de os médicos anunciarem greve. O motivo para a possível deflagração de um movimento dos médicos que atendem a população pelo Sistema Único de Saúde, o SUS, é, em certo sentido, idêntico ao dos magistrados: reclamam reajuste salarial. As semelhanças, porém, terminam aí, começando então as diferenças, a principal delas ligada ao vencimento de cada categoria. Os médicos reclamam da quantia que recebem atualmente (R$ 2,40 por consulta), o que significa que para atingir o valor do mínimo que o governo pretende aprovar, a partir de maio, seriam necessárias cerca de 70 consultas por mês. Mais sério é que para atingir o teto que se pretende estabelecer para o Serviço Público (R$ 11.500,00, sem contar outras vantagens), incluindo não só os membros do Judiciário, mas também os do Executivo e Legislativo, o médico teria que fazer 470 consultas por mês. Seriam 16 consultas por dia, incluindo sábados, domingos e feriados, quando o funcionalismo de modo geral não trabalha.
Evidentemente, pode-se dizer que ambos os tipos de comparação, tanto a relativa ao mínimo quanto ao teto, são algo forçadas, até porque há imensas diferenças entre o trabalho dos médicos, dos trabalhadores em geral e dos membros mais destacados do governo. Todavia, o que não se pode deixar de lado é a observação sobre a valorização que o próprio governo estabelece em relação ao povo, que é o grande usuário do SUS, obrigado a buscar atendimento junto a profissionais que são vergonhosamente desvalorizados. Sem dúvida, há queixas e reclamações sérias em relação ao atendimento médico no SUS em quase todo o país, do mesmo modo como há terríveis problemas e dificuldades na questão hospitalar. E em todos os casos, o que se evidencia é a total falta de sensibilidade das autoridades, que tanto falam em preocupação social, mas que simplesmente se negam a oferecer um pagamento no mínimo justo aos profissionais da área da saúde, aí incluídos também os demais trabalhadores do setor.
O que se tem no Brasil hoje, independente de comparações, é o quadro sem retoques de uma situação inaceitável num país de gente carente e doente. Não se pode justificar o profissional médico por um atendimento ineficiente ou desatencioso em função do vergonhoso preço que lhe pagam. Entretanto, este valor retrata a insensibilidade oficial diante dos problemas de saúde do povo, mostra a diferença entre o discurso demagógico dos que lutam com todas as forças para manter e ampliar os próprios privilégios e simplesmente não levam em conta o sofrimento dos que procuram uma consulta, dos que lotam os hospitais tentando o socorro, dos que sofrem com doenças que são ampliadas pela miséria e pelo desconforto.
Os médicos não deveriam precisar sequer pensar em fazer greve para conseguir um reajuste digno para os valores que são pagos por uma consulta. Do mesmo modo, os hospitais não deveriam ter de pressionar por pagamentos justos e adequados, inclusive com a suspensão do credenciamento para o atendimento aos carentes, se houvesse por parte dos responsáveis uma preocupação real. Os brasileiros, vale rememorar, estão pagando de novo a famigerada CPMF, cujos recursos deveriam reverter para melhoria na saúde pública. Pelo visto, porém, não é o que está ocorrendo. O contribuinte paga tudo, mas não recebe em troca o mínimo devido. A saúde vai mal, os médicos são humilhados por um pagamento irrisório, o povo sofre, e os privilegiados querem dobrar o teto em benefício próprio.

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