A convocação extraordinária do Congresso Nacional para continuar apreciando as reformas estruturais é o tipo de decisão que efetivamente não comportava alternativas. Sabia-se que de um lado estava (como ainda está) a preocupação em relação ao custo que isto representa para o País. E e do outro, a necessidade de se adiantar as reformas, pelo menos as constitucionais. Na verdade, se durante a convocação houver avanços significativos, o custo será irrelevante, diante do que está em jogo - a solidificação do processo econômico.
O problema, porém, continua a ser a dúvida sobre o comportamento dos membros do Congresso. Se até agora, depois de dois anos e meio de trabalho, não adiantaram medidas que já poderiam (e deveriam) ter sido votadas, aprovadas e promulgadas, é até difícil crer que façam muita coisa no mês de julho. Este temor é ainda maior diante de todas as dificuldades que o Executivo vem enfrentando, até para manter a coesão da bancada, que em tese deveria apoiá-lo no Congresso. Com efeito, a coligação que participou da eleição vitoriosa de Fernando Henrique Cardoso à Presidência conseguiu razoável maioria no Congresso. As negociações ulteriores, incluindo aí a entrega de Ministérios e outros comandos aos ‘aliados’ políticos, deveria ter solidificado a situação.
O que se tem visto, porém, ao longo destes dois anos e meio de atividade do Congresso, não é de molde a provocar otimismo ou entusiasmo. Já houve tempo mais que suficiente para que se concluíssem todas as reformas, até mesmo a tributária, que já poderia estar em vigor, mesmo só podendo ter vigência no ano seguinte à sua promulgação. O que se viu ao longo de todo este período foi não uma negociação política elevada, mas muitas negociatas, conchavos e abusos, não faltando sequer a denúncia de compra de votos no episódio relativo à emenda da reeleição dos chefes de Executivo.
Apesar de tudo isto, a convocação extraordinária do Congresso surge como inevitável, diante mesmo da certeza sobre a necessidade das reformas. Não fazer a convocação, sob a alegação do custo, não significaria economia, porque o que está em jogo é muito sério. É terrivelmente lamentável sentir que ponderável parcela dos membros do Congresso não se apercebe disto, é duro constatar que muitos querem mesmo as vantagens dos vencimentos adicionais, sem qualquer tipo de preocupação real com o povo, com o Brasil, com as necessidades e interesses nacionais. Mas até mesmo esta questão precisa ser devidamente colocada para que os eleitores possam ter pleno conhecimento dos que trabalham por ele e dos que continuam a querer fazer do mandato uma sinecura.
Um Congresso que cumpra suas obrigações para com o povo nunca é caro demais. É o preço de uma democracia, de um regime de representação como o nosso. O problema não está no custo de uma convocação, nem mesmo no que recebe um dos representantes do povo, mas na falta do cumprimento do dever. As dúvidas que surgem, a perda de prestígio do Poder junto ao povo, isto não é defeito da democracia em si, mas é falha dos homens, até mesmo dos partidos. E para corrigir estas deficiências é que o povo precisa manter-se atento, cobrando, exigindo, participando, como tem feito nos últimos anos da história brasileira.
A convocação do Congresso para o mês de julho não é uma ocasião a mais para que os parlamentares ganhem um adicional polpudo. É, isto sim, uma excelente oportunidade para que os homens públicos cumpram com suas obrigações. A responsabilidade pela convocação é do Executivo, mas o compromisso maior é do Congresso, que não pode mais se omitir diante dos reclamos nacionais.

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